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ReviewReviewReviewAnimais e crençasMay 29, '08 9:39 AM
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Category:Other
Priscila Gorzoni
Revista dos Vegetarianos, ano 1, número 11

[Fiz a transcrição da reportagem na íntegra. Não gostei da maneira como ela colocou algumas coisas, mas tem algumas informações muito legais.]

Não existe cultura que não tenha suas crenças, crendices e superstições baseadas nos animais. Por conta dessa simbologia na mitologia e no folclore, não são poucos os casos de pessoas que matam gatos pretos, corujas e sapos por acharem que esses bichos lhes trazem mau agouro. Veja aqui algumas dessas vítimas do imaginário popular.

CORUJA
Na mitologia romana, ela era a ave de Atena. Simboliza a sabedoria e o dom da clarividência. Simbologia provavelmente vinda da mitologia grega, pois foi a coruja quem viu Perséfone saboreando o fruto do inferno. Segundo o folclorista Câmara Cascudo, as corujas anunciam a morte de alguém da casa quando voam em seus telhados e seu canto lúgubre é prenúncio de desgraça. Apesar de seus simbolismos sinistros, no norte do Brasil, essa ave de rapina das famílias Tytonidae e Strigidae representa sorte. Os caboclos, que possuem um contato maior com o bicho, a consideram um bom sinal.

CAMALEÃO
O que mais chama a atenção nesse Chamelacon pardalis, da família dos Camaleontídeos,originários da bacia do Mediterrâneo, é a sua mudança de cor. Por conta disso, o Camaleão aparece em vários folclores. Entre eles o da Ramaiana, onde o rei Nigras foi condenado a permanecer invisível na forma de um camaleão durante milhares de anos. Depois de algum tempo, tornou-se uma crença popular acreditar que o camaleão continha ar e dele se alimentava. Idéia que se originou da atitude de imobilidade e da capacidade de viver um longo tempo sem comer.

LOUVA-A-DEUS
Na Amazônia acredita-se que ele adivinha o sexo do bebê. Se ao sopra-lo, ele mover as pernas dianteiras é menina, se tentar saltar é menino. “Apesar de seu jeito de “Santo”, o louva-a-Deus é um inseto bastante agressivo e as fêmeas têm o péssimo hábito de devorar os machos após a fecundação”, relata Nelson Papavero, entomólogo do Museu de Zoologia de São Paulo. Muitas culturas o consagraram, entre elas a africana, que o considerava uma reencarnação dos mortos.

SAPO
Eles são as maiores vítimas das crenças populares, afinal quem já não ouviu falar de sapos em bruxarias? Nas fábulas de Esopo e africanas, o anfíbio ganha uma outra representação, a de um personagem cômico. Mas infelizmente prevaleceram as crenças ruins. Ao contrário da crença popular, os sapos não esguicham veneno para atacar ou cegar seus potenciais agressores ou predadores. O veneno só é liberado quando suas glândulas são pressionadas. Os sapos são animais extremamente úteis ao homem por se alimentarem de uma grande diversidade de insetos, entre outros animais. São indiscriminadamente caçados e eliminados, o que é absolutamente injustificável dada sua importância na cadeia alimentar.

GATO PRETO
Provavelmente, os gatos tornaram-se de estimação há 5 mil anos na África e seu ancestral selvagem foi o gato selvagem africano: Felis silvestris. Os antigos egípcios os reverenciavam e os consideravam reencarnações da Deusa Bastet. Eles costumavam cria-los dentro de casa e quando algum morria, o egípcio raspava sua sobrancelha em sinal de luto e embalsamava seu gatinho. Mas não durou muito o seu reinado, com a chegada da Idade Média e a Inquisição, a imagem do gato mudou. De sagrado ele tornou-se profano, isso só porque o felino possui hábitos noturnos e passaram a associa-lo com demônios. Se um gato preto era visto perto de uma mulher, ela e o bicho eram levados imediatamente, condenados e queimados. Na Amazônia Peruana, existem pajés que absorvem e produzem através da pajelança a energia do gato para obter destreza e astúcia contra o inimigo.

URUBUS
Não são poucos os dito sobre essas aves. A maioria diz que a presença de urubus é prenúncio de morte. O que não deixa de ser verdade, pois os urubus se alimentam de carniça e são os maiores faxineiros da terra. Ele realmente é esperto, sabido oportunista. Quando se depara com a oportunidade de conseguir carniça, aproveita. Conhecido popularmente como urubutinga e corvo-branco, os povos indígenas acreditam que a espécie urubu-rei voa acima da região das nuvens e todas as flechas com as penas dessa ave não erram o alvo.

MORCEGOS
No Brasil ele simboliza o mau agouro, os mais antigos vão longe e afirmam que ele seria o pássaro do diabo e o povo acredita que o morcego é a transformação de um rato velho. “Isso é impossível, o rato é uma espécie e o morcego outra”, rebate Mário Dvivo, professor e pesquisador do Museu de Zoologia de São Paulo. Na prática, ele nada faz além de percorrer pomares à noite atrás de frutas e insetos. Além disso, eles espalham sementes e polinizam os vegetais. Das quase mil espécies de morcegos no mundo, apenas três são de hematófagas, ou seja, que se alimentam de sangue. Uma delas é a dos Desmodus rotundus, que ronda os curais na calada da noite para sugar o sangue de bois e vacas. Seus ataques só são perigosos quando estão com raiva.

COBRAS E SERPENTES
Não existe uma tradição que tenha se esquecido das cobras e serpentes em suas lendas. Dos répteis, são as cobras e as serpentes as que mais impressionam pela pele fria, escamada, aspecto estranho, principalmente pela existência de espécies peçonhentas, cujo veneno pode matar. As crenças mais sagradas e antigas associam a serpente aos períodos de transição da vida humana. Encontram-se provas destas forças até mesmo no período paleolítico da pré-história, em pinturas rupestres descobertas, por exemplo, em Lascaux, na França. Na Sibéria, os xamãs até hoje usam indumentárias de serpente, simbolizando estar familiarizados com esferas do poder. Os iogues hindus, em seu estado de transe, ultrapassam as categorias normais do pensamento, pelo poder atribuído pela serpente. Talvez o símbolo onírico mais comum de transcendência seja a serpente representada como símbolo terapêutico de Esculápio, deus romano da medicina, e que até hoje subsiste como símbolo da profissão médica. Entre as lendas está a mais conhecida sobre as “cobras que mamam”. Algumas pessoas acreditam que elas têm o hábito de mamar em mulheres grávidas. Para tanto, ao detectarem que existe uma mulher grávida ou que recentemente tenha dado à luz, a cobra se aproxima, oferece a ponta da cauda para que o bebê mame e passa ela mesma a sugar o seio da mulher. Outra crença bastante difundida e sem fundamento diz respeito ao fato de que as cobras teriam a capacidade de hipnotizar suas vítimas.

EMA
Ela é a maior ave do Brasil. Desengonçada e brava, a ema tem fama de farreira. Tanto que também não são poucas as crenças sobre ela. As mais conhecidas são as da tribo dos Bororos. Para eles, a ema representa o cruzeiro e as estrelas, os cães que a perseguem. Já os Xálquis da Argentina reproduziram vários aspectos de suas vidas em cerâmicas. E os Guaranis acreditavam que existisse uma ema fantástica de cor vermelha, que guardava os tesouros escondidos na terra. A ema é encontrada na letra de Bumba-meu-boi, onde representa a embriaguez, fazendo alusão ao seu modo de andas. Também é conhecida como nhandu-guaçu, guaripe e erroneamente de avestruz.

ACAUÃ
É uma das aves mais conhecidas do nordeste por anunciar chuva e matar sobras para alimentar seus filhotes. Mas é tida por algumas lendas como uma ave agourenta, devido ao seu grito que se ouve em dias de lua cheia. “A vocalização desse gavião é tão intensa que as lendas dizem que quando ele grita, todos os outros se calam para ouvi-lo. Na verdade, as outras aves fazem isso para se protegerem do acauã, que é um grande predador”, comenta Ricardo José Garcia Pereira, médico veterinário.



Blog EntryUma fábula sobre a fábulaAug 16, '07 11:38 AM
for everyone


Li esse conto em um grupo de danças circulares do qual participei por algum tempo (pouco tempo, infelizmente). Não é exatamente igual à versão que li, mas a idéia é sempre a mesma, não é?

Uma Fábula Sobre a Fábula
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
(Deus é Grande)

Q uando Deus criou a mulher, criou também a Fantasia. Um dia, a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al Raschid.
Envoltas as lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Verdade! - respondeu ela, com voz firme. - Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, o sheik do Islã!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:
- Senhor - disse, inclinando-se humilde -, uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harum Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.
- Como se chama?
- Chama-se a Verdade!
- A Verdade! - exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. - A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Diz-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!
Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso califa. Com ares impudicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harum Al-Raschid. Volta pois, pelos caminhos de Allah!
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harum Al-Raschid, cujas portas se fecharam à diáfana formosura!
Mas…
Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é Grande)
Quando Deus criou a mulher, criou também a obstinação. E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid…
Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras muçulmanas.
Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe.
- Quem és?
- Sou a Acusação! – respondeu ela, em tom severo. Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid. Comendador dos Crentes.
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se com o grão-vizir.
- Senhor – disse, inclinando-se humilde -, uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harum Al-Raschid.
- Como se chama?
- A Acusação!
- A Acusação? – repetiu o grão-vizir, aterrorizado. – A Acusação quer entrar neste palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Diz-lhe que uma mulher, sob vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor.
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade:
- Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah.
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harum Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.
Mas…
Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é Grande)
Quando Deus criou a mulher criou também o capricho.
E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harum Al-Raschid.
Vestiu-se com riquíssimos trajes, cobriu-se com jóias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
- Quem és?
- Sou a Fábula – respondeu ela, em tom meigo e mavioso. – Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harum Al-Raschid, Emir dos Árabes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir.
- Senhor – disse, inclinando-se, humilde -, uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harum Al-Raschid, Emir dos Crentes.
- Como se chama?
- Se chama Fábula!
- A Fábula! – exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. – A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula. Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes. Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, sob o aspecto da Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harum Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império muçulmano.


Lenda árabe
recontada por Malba Tahan

Copiada do site Armazém de Sonhos

 


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