O meu estômago está se contorcendo. Meu coração parece que vai sair pela boca. Estou agitada, quase tremendo. Começo a sentir ânsias. As lágrimas vêm e vão.
Tudo isso porque eu vou contar uma história. E no final vou fazer uma afirmação. Aquela que será o título deste post, mas que não serei capaz de escrever antes de terminar isto.
Quem tiver ouvidos para ouvir, ouça.
Eu nem sei onde isso começa. Acho que começa muito antes de ser o que é. Afinal, quando comecei a fazer balet eu ainda usava fraldas. Não, isso não é piada: eu usava fraldas. Eu tinha 2 anos de idade. Dancei até os 8. Não me peça pra dançar balet, eu não me lembro como se faz. Mas a música ficou gravada na minha carne e na minha alma.
Com 10 anos de idade, comecei a estudar piano. Não é todo mundo que tem um piano na sala de casa praticamente desde que nasceu. Ainda assim, eu nunca o tinha ouvido ser tocado. Com 10 anos de idade, eu nunca tinha escutado o piano de casa ser tocado. No máximo, tinha ouvido o som das teclas que eu mesma apertava ao acaso, fingindo que sabia tocar.
O piano foi presente do meu avô para minha mãe. Ela, que começou a estudar piano antes mesmo de ser alfabetizada. Ele... Ele que foi morto num acidente de carro estúpido, deixando na Terra uma filha de 10 anos, um filho de 8 e uma esposa de pouco mais de 30 que nunca mais teve ninguém. Uma família machucada – sim, porque todos estavam no carro no momento do acidente – e marcada pra sempre pela perda. Perda causada... Causada por dois... Por dois carros que estavam tirando racha e atingiram quem só queria voltar pra casa depois de uma visita aos parentes.
Ela... Ela continuou estudando piano. Ela se formou. Ela deu aulas. Ela largou tudo pra estudar Odontologia e conseguir estabilidade financeira. Hoje, ela fica meses sem cortar o cabelo para economizar dinheiro.
A maior lembrança daquele pedaço de vida estava materializada na minha sala. Comecei a tocar. No início, criança prodígio. Com o tempo, menos, menos, menos... Eu, que tinha evoluído tanto em tão pouco tempo, simplesmente fui parando de estudar. Até que, numa briga com minha mãe por outros motivos, ela me castigou parando de pagar a professora. E essa parte da história terminou. A lembrança continua lá, materializada na sala, a poucos metros de onde estou sentada escrevendo isso. Está desafinada, esquecida... Mas impondo sua enorme presença no pequeno apartamento que temos, gritando silenciosamente sem ser ouvida. Sua simples presença consola minha mãe. Há pouco tempo, definimos seu destino: da sala da minha casa, o piano irá... Para a sala da minha casa.
Não muito tempo depois... Ainda com 12 anos... A história começa a tomar corpo... Lembro bem de minha avó reclamando da minha voz de taquara rachada quando eu cantava. Minha voz sempre foi um problema aqui em casa. Não pela minha mania de ficar cantando, mas pela minha fala, mesmo. Em algumas épocas, reclamavam que ela era alta e estridente demais. Passava-se um tempo, e reclamavam que era baixa demais e mal podia ser ouvida. Mais um tempo, novamente ela era alta e estridente. Hoje... Hoje não me importo mais com como minha fala parece. Naquela época, alguém teve uma grande sacada...
“Puxa”, disse minha mãe à minha avó, “a senhora reparou como a voz da Caroline melhorou? Deve ser porque ela está fazendo coral. Antes ela tinha uma voz estridente, esquisita, agora está com a voz bem mais controlada. Acho que seria bom a Thais fazer coral também”. Caroline era uma colega da minha sala. O colégio em que estudávamos oferecia aulas de coral há um ano. Eu não consigo me lembrar se na época e que começou quis participar ou não. Eu só me lembro que os comentários sobre minha voz de taquara rachada quando eu cantava me envergonhavam profundamente. E assim, para que também eu aprendesse a controlar a voz não no canto, mas na fala, foi decidido que eu entraria para o coral.
Eu acho que nunca, em nenhum lugar da minha vida, eu estive tão atenta quanto eu ficava naquelas aulas. Em pouco tempo aquilo fazia tão parte de mim que eu já nem me lembrava como tinha ido parar lá; era como se fizesse aquilo minha vida inteira. Até hoje, eu não me lembrava como tinha entrado no coral. Lembrei agora, escrevendo isso. Curioso, não?
O professor é de longe uma das melhores pessoas que conheci na minha vida. Elinson. A fé que ele colocava na gente... Acho que nunca eu me senti tão acreditada quanto eu me sentia por aquele homem. A fé, o carinho, a questão que ele fazia de nos tratar bem e de tornar aquela atividade divertida, a mágoa em seus olhos quando nos dava bronca por a classe estar fazendo bagunça (eu sempre ficava brava quando a classe estava fazendo bagunça, que fique bem claro).
Naquele ano fizemos uma apresentação linda, toda coreografada, numa igreja, em homenagem a uma data importante para a congregação religiosa à qual nosso colégio pertencia. A apresentação contava a história das migrações no Brasil, já que essa congregação tinha como objetivo principal cuidar dos migrantes. Cantamos tanta coisa diferente... Fizemos tanta coisa diferente... Até percussão corporal tinha no meio daquela apresentação de pivetes que iam da quarta à sétima série. Foi maravilhoso!
O tempo continuou passando. Numa festa de Natal da família, apareceram com um videokê, que eu quase monopolizei. Toda a parentada ficou admirada, acho que foi o dia em que recebi mais elogios na vida. Ninguém entendia como é que eu tinha aprendido a cantar daquele jeito.
No segundo ano de coral, eu com 13 anos e na oitava série, iríamos fazer uma apresentação no auditório do colégio, mesmo. Percebemos que não tínhamos um nome, começamos a pensar em algum. Acabou vencendo uma das minhas idéias: VidArte. Imprimimos convites para entregar às pessoas. Eu trouxe um monte de convites pra casa, pensando em todos os que eu queria que fossem. Minha mãe não gostou da idéia, falou que ninguém gosta de ir a apresentações de colégio e se eu convidasse as pessoas iriam por obrigação, o que seria muito pior. Não tive coragem nem de entregar os convites, e nem de devolvê-los ao professor. No dia, pouca gente foi assistir. Quanto mais se aproximava a hora de começar, mais a mágoa nos olhos do professor ia crescendo. Por fim, minutos antes, ele nos reuniu, nos abraçou, e disse que acreditava na gente. Se eu tiver que definir sinceridade... Bem, vou me lembrar daquele momento.
Não interessam quantas pessoas foram assistir. A apresentação foi linda. No final, eu pude ver a vergonha no olhos da minha mãe, me dizendo que se soubesse que seria daquele jeito ela teria permitido que eu convidasse as pessoas. A vergonha só cresceu quando uma amiga dela, que tinha ido ver o coral por convite de outra pessoa, foi dizer que não sabia que eu também estaria me apresentando, e deu uma bronca nela por não a ter avisado e convidado. Nesse dia, nesse momento, eu sabia que eu era boa.
Logo em seguida, seria minha formatura da oitava série. Acharam que seria uma boa idéia se alguns alunos da sala montassem uma banda para tocar na missa de formatura. Uma grande amiga, a mais entendida de música do pedaço, iria tocar teclado, e outras duas grandes amigas, que também faziam coral, iriam cantar junto comigo; além dos meninos que iam tocar guitarra e bateria. Aí tivemos um probleminha... A tecladista falou pras outras meninas que iriam cantar que só aceitaria que elas cantasse se elas conseguissem me acompanhar direito, porque eu era a única ali que conseguia acertar o tom. Ela já tinha passado muito nervoso com elas saindo do tom em outras apresentações que tínhamos feito em datas festivas da escola, e não ia querer saber disso da formatura. Eu não deveria me preocupar, porque ela sabia que eu acertava, mas se as outras não fizessem direito, estariam fora.
Bem, as outras duas meninas gostavam de cantar tanto quanto eu. É claro que elas não brigaram comigo por causa disso, mas dá pa imaginar a tensão que isso gerou. A tecladista não precisava ter dito aquilo da maneira dura como ela disse. Elas ficaram muito humilhadas e magoadas. E eu... Eu fiquei envergonhada, porque acharam que eu era boa. No dia da missa de formatura, não sei o que aconteceu... Só tinha um microfone pras três. Foi bem constrangedor.
Enfim... A formatura passou, e como aquele colégio não tinha ensino médio, tive que ira pra outra escola. Assim, fui obrigada a sair do coral. O professor sempre me convidava a voltar e assistir as aulas, mas os horários não batiam com os da nova escola. Uma vez, acho que eu já tinha entrado de férias enquanto a escola antiga ainda estava em aulas, e fui visitar o coral. Eles iriam se apresentar numa festa da escola em uma semana, estavam ensaiando o semestre inteiro... E me convidaram pra participar! Em uma semana eu tive que pegar as músicas de seis meses. Foi a minha última apresentação com eles. O coral continuou se chamando VidArte até sua extinção, alguns anos depois, quando o professor saiu do colégio por algum motivo. Da última vez em que assisti uma apresentação deles, chorei do começo ao fim.
Pelo que me lembro, logo no primeiro semestre do primeiro colegial, com 14 anos, comecei a fazer aulas de violão no Projeto Guri. O processo foi semelhante ao do piano: no início, garota prodígio, até que menos, menos, menos... E nada. Em seis meses acabou tudo. E não me peça pra tocar, porque eu não lembro de absolutamente nada e não consigo entender nenhuma lógica na localização das notas. Porém, nesses seis meses tive a honra de tocar com a...
Acabei de precisar reiniciar o computador. Interessante.
... tiva a honra de tocar com a Camerata de Violões do Projeto Guri na Sala São Paulo, acompanhando o padrinho do projeto, que é ninguém mais ninguém menos que o Toquinho. E eu estava ali, tocando na primeira fileira, a o quê? Três metros dele? Fantástico.
Acho que eu ainda nem tinha parado de fazer violão quando entrei no coral do Projeto Guri. E depois talvez eu tenha trocado um pelo outro. Aí sim, conheci o que era um coral grande, bem estruturado, com divisão de vozes de verdade e tudo o mais. Só aconteceu uma coisinha estranha: me classificaram como soprano. Hein? Eu? Ok, se vocês estão dizendo... Cantei até o final do ano, talvez até o começo do segundo colegial. Fiz várias apresentações... Fui pra Sala São Paulo mais uma vez, agora com o coral acompanhando a Orquestra Sinfônica de São Paulo.
Passado um tempo, minha voz começou a falhar. Falhar no coral, falhar na igreja (eu fazia parte da Renovação Carismática da Igreja Católica, e cantava as músicas com muita empolgação), falhar nas minhas cantorias em casa. Passei também a ficar rouca freqüentemente. Conversei com a namorada do meu antigo professor de coral, pedindo pra ela perguntar a ele o que eu poderia fazer. Conversei com o preparador vocal do teatro (sim, eu também fazia teatro). Pedi pra me reclassificarem no coral. Soprano novamente. Ué... Por fim, marquei uma consulta com um otorrino.
Nesse ponto, começo a me sentir envergonhada por estar contando essa história. É bom registrar isso. Começo a fugir, a procurar outras coisas pra fazer e outras coisas pra ver no computador.
Voltando. O otorrino foi um grandissíssimo filho da puta. Ele disse que pra descobrir o que estava de errado com a minha voz eu precisaria fazer uma laringoscopia, que era um exame muito arriscado. E que eu tinha que pensar muito bem se valia a pena correr tanto risco por uma coisa que era só fogo de palha. Bom, fogo foi o que eu senti naquela hora, me segurando pra não voar no pescoço dele. Enquanto ele enfatizava o quanto era arriscado aquele tipo de exame, minha mãe, que já é assustada por natureza, foi ficando mais e mais nervosa. É claro que ela não me deixou fazer o exame.
Saí do coral. Não podia mais ficar lá com a voz daquele jeito. Naquela época, o tempo em que fiquei sem cantar pareceu uma eternidade, quando na verdade foi menos de um ano. Bem menos tempo do que eu fiquei parada depois. Naquele ano eu fiz milhares de coisas, eu conciliei todas muito bem. Sabem que ano era esse? O ano de 2001. Acho que não foi à toa que eu canalizei tanta competitividade pra outro foco. Olhando pra trás, vejo que era a minha voz presa no peito querendo sair. E não só isso... Era também o fogo que ficou queimando dentro de mim ao escutar aquele maldito médico desdenhar de quem eu era.
Mas o tempo estava passando... Era último ano que eu tinha antes de ter que me preocupar com cursinho e vestibular, com o meu futuro sério. Era o último ano que eu tinha pra aproveitar as coisas que eu gostava de fazer. E talvez... Talvez... O fogo e a dor tenham sido canalizados pra outras fontes, e não pra onde deveriam, pra que, me afastando do canto e calando minha voz, a dor não fosse tão grande quando eu tivesse, de fato, que largar tudo pra investir no meu futuro sério. Como minha mãe fez.
Senti a minha voz ir ficando mais e mais presa. E quando eu precisava cantar, agora era preciso fazer um esforço descomunal. Ainda assim, quase no fim do ano alguém me viu cantando na igreja, gostou, e me chamou pra cantar na banda de lá. Eu tremi tanto por dentro! Cheguei em casa já brigando com a minha mãe para procurarmos outro otorrino. Fomos, ele disse que o exame não tinha nada de complicado nem de arriscado, só era um pouco incômodo. Ficou espantado com o que o outro médico tinha dito. Fiz o exame, e eu não tinha absolutamente. No máximo uma rinitezinha. Fui pra banda. Fiquei um tempo... E saí. Sim, saí. E saí depois de pouquíssimo tempo. Saí porque o meu grupo amador de teatro estava às vésperas do festival que iríamos participar, e a diretora resolveu aumentar o número de ensaios por semana, marcando exatamente pro dia dos ensaios da banda.
Nessa época, eu me achava bem pior do que as outras cantoras da banda. E saí, de verdade, porque se eu continuasse ali, ensaiando, eu estaria correndo o risco de achar que eu era boa, que eu tinha potencial, que eu poderia chegar a ser muito boa. E se eu chegasse a acreditar nisso... Não investir e não arriscar seria apenas uma escolha minha. Eu não poderia de jeito nenhum colocara culpa no acaso e na vida, dizendo que não tinha sido presenteada com um dom. Se eu fosse boa, se eu voltasse a acreditar que podia ser boa... Eu teria que arriscar. Não haveria outra opção, porque sabendo o que eu tinha capacidade pra fazer, se eu não arriscasse, num futuro bem longe, quando não houvesse mais tempo, a culpa e o remorso seriam insuportáveis. Por outro lado, arriscar significaria decepcionar minha família, colocar em risco meu futuro sério. Não, não... Era mais fácil, bem mais fácil, desistir. E ao fim disso, apaguei o fogo em mim.
Aí, sim, o tempo passou. Terceiro colegial e cursinho, entrada na USP aos 17 anos de idade, faculdade em período integral. Por 5 anos, eu senti minha voz se apagar cada vez mais.
Quase me esqueci! Lembrei, não escrevi, e esqueci... Em pleno terceiro colegial, fui a uma festa do meu antigo colégio, pois meus irmãos ainda estudavam lá. Vi uma apresentação do VidArte, e depois, fui conversar com o professor. Ficamos conversando sobre o desempenho de uma das meninas do coral, a melhor delas. Comentei que ela levava muito jeito pra coisa e que deveria investir. E então ele disse: “É, tem mais alguém que leva jeito pra coisa, mas não está investindo, sabe”? Eu fiquei vermelha, abaixei a cabeça, dei um sorriso rápido, e imediatamente me esforcei pra apagar aquela sensação de dentro de mim.
Voltando... Do terceiro colegial até o começo do quinto ano da faculdade, senti minha voz ir definhando cada vez mais. Eu continuava cantando no chuveiro ou nos videokês da vida, mas agora sem elogios, e com alguns narizes torcidos. Já tendo pasasdo no vestibular, resolvi tentar resgatar um pouco de tudo aquilo me inscrevendo num reality show de música. É claro que não deu em nada. Que idéia... Ficar tanto tempo sem cantar e achar que chegar chegando poderia ser a solução. O tempo continuou passando, e agora eu só tinha uma vaga idéia, uma vaga lembrança de como era quando eu sentia que podia ser boa, mas aquilo já era uma idéia distante...
Durante esse tempo, minha família se consolidou como um grupo de músicos frustrados. Meu irmão começou a tocar baixo, mostrou um talento incrível, passou pra violão clássico, e deixou quando estava entrando no terceiro colegial. Meu pai, que na adolescência tocava violão – o violão que eu e meu irmão tocamos era dele – voltou a estudar violão e começou a estudar guitarra, e também parou.
Eu soube de uma história bonita sobre meu pai... Mesmo sem nunca ter estudado teoria, ele fez algumas composições pra violão, e as gravou numa fita. Com o tempo, a fita desapareceu. Anos depois, pegando carona com um amigo de um amigo, o cara encontra uma fita qualquer e coloca no rádio do carro para eles escutarem. Era a fita com as composições do meu pai. O cara começou a elogiar o som e a perguntar quem tinha feito e como aquela fita tinha ido parar no carro dele. Meu pai não contou. Ficou em silêncio. Deixou a fita no carro, a perdeu pra sempre.
No meio do quarto ano da faculdade passei por uma situação que me fez tentar resgatar quem eu era antes de entrar em Psicologia. Eu tinha passado todos aqueles anos infeliz e afastada de quem eu era. Por conta disso, acabei despejando nas costas do meu namorado toda a responsabilidade pela minha felicidade. Não foi um fardo fácil de se carregar. No meio daquele ano, passei a voltar a buscar atividades que me davam prazer.
No começo do quinto ano da faculdade, cortei o cabelo. Num estágio que eu estava fazendo, cantei algumas músicas perto de um colega e ele elogiou minha voz, o que não acontecia há anos. Depois acabei brigando muito feio com esse colega, e o que me magoava mais nessa nossa briga era lembrar que ele tinha elogiado minha voz. Por ele ter feito isso quando mais ninguém fazia, ele acabou se tornando importante pra mim. Quando me apunhalou pelas costas, a dor foi maior.
Enfim... Primeiro estágio fora da faculdade... Cabelos curtos... Sinais de mudança. Tudo aconteceu em janeiro. Fui acompanhar minha irmã na festa de aniversário que as fãs organizaram pro Leandro Lopes, o vencedor da primeira edição programa Ídolos do SBT. Um cara com uma voz incrível. E por acompanhar minha irmã, passei a acompanhá-lo, e por acompanhá-lo, conheci a Underfunk, que me pegou pelas pernas. Mas essa é outra história... Ou melhor, é a mesma história, mas se eu começar a contá-la, vou acabar saindo do foco.
Nessa festa tinha um videokê. E eu, tentando me fazer de desinibida, resolvi cantar no videokê. Cantei bastante, cantei com a Val, cantei com a Dani, que é a namorada do Leandro, e cantei com o próprio Leandro, olha só! E aí, por não conseguir cantar direito, foi que caiu a ficha: “O QUE EU ESTOU FAZENDO COM A MINHA VOZ? O QUE EU ESTOU FAZENDO COM A MINHA VIDA?”
Eu tinha me afastado da coisa que mais me dava prazer nesse mundo. Como eu fui capaz de fazer isso comigo mesma??? E como naquele ano eu estava ganhando um dinheirinho extras de algumas bolsas que peguei na faculdade, me matriculei numa escola de música pra voltar a fazer aulas de canto. Logo quando comecei, desenvolvi uma alergia respiratória que eu não tinha desde bebê; mas acabei superando.
Mas depois de tanto tempo, eu não poderia chegar já dando o braço a torcer, né? Por um ano, estudei canto – e estudei teoria pela primeira vez, fiquei encantada! – pensando em levar aquilo como um hobby. Afinal, eu estava pra me formar em Psicologia pela USP, né? Recebi mil elogios do professor e da mulher dele. No segundo semestre, tudo o que eu consegui pensar era na audição de fim de ano.
E chegou o dia. Eu fiquei nervosa a semana toda, eu me preparei como uma noiva. Eu estava com medo da minha interpretação, como eu ia ter coragem de cantar em público??? Quando cheguei ali na frente e os primeiros acordes da música que eu tinha escolhido – História de Uma Gata, do Chico Buarque. Sugestivo? – começaram, tudo desapareceu. Eu cantei. Eu dancei. Minha voz saiu como nunca tinha saído. Eu olhei nos olhos do público. E eu parei no meio do refrão pra dar risada, sim, porque vi minha prima morrendo de rir na platéia. E eu retomei a música e cheguei até o final feliz e segura como eu nunca imaginei que pudesse me sentir, principalmente depois de um erro desses. A platéia adorou, muitos vieram me elogiar ou foram falar para o professor como tinham gostado.
Minha mãe disse “Eu nunca achei que você deveria investir nisso, mas agora eu acho, viu?”. Claro que foi coisa de momento. Mas conhecendo a minha mãe e sabendo como ela é, foi muito importante.
E aí eu voltei a acreditar que eu podia ser boa. Eu voltei a acreditar que eu podia chegar a ser muito boa. E passei as férias feliz.
Quando 2008 começou... Minha voz estava travada. A alergia atacada, não passava de jeito nenhum. As aulas pararam de render. Já nem conseguíamos acertar os horários das aulas. O professor ficou assustado, não sabia o que me dizer, eu o via ficando sem graça por não entender o que estava acontecendo com a minha voz. Comecei a pensar de novo “eu não consigo”, “eu sou ruim”. Comecei a parar de estudar, como eu tinha feito com o piano e o violão; comecei o processo de desistir.
E foi aí que a vida começou a me mostrar seus sinais. Foi aí que eu entendi que grande parte da minha admiração por certas pessoas era por elas terem a coragem que eu não tinha. Foi aí que eu entendi que o que eu sinto com música, que esse êxtase de todos os sentidos, que esse tremor no corpo inteiro, que nada disse está aí pra ser jogado fora. Foi aí que a vida foi me mostrando, gentil ou violentamente, que tudo estava unicamente nas minhas mãos. Que a minha voz estava travada porque eu era covarde demais pra assumir que eu podia, sim, ser boa, e que se eu não fosse boa, isso seria uma escolha minha. Não obra do acaso, não destino: seria unicamente responsabilidade minha.
Os sinais continuaram chegando de todas as partes. E se tornou impossível jogar a culpa no acaso ou na minha incapacidade. Eu já sabia do que eu era capaz. Eu já tinha plena certeza de que a responsabilidade por ser ou não ser boa era só minha. Só dependia de mim mostrar a que vim ou ser só mais uma. E tudo isso, e todos os sinais que a vida foi me dando foram se acumulando dentro de mim... Segurei ao máximo, sabendo da responsabilidade que eu teria quando eu deixasse tudo aquilo sair. Segurei, segurei, segurei... Até que não foi mais possível. Explodi. E quando explodi, eu descobri que eu era só um casulo. A borboleta que dele saiu é a verdade, é a essência. E chegou a hora de ela aprender a voar.
Chegou a hora de eu perder a vergonha. Chegou a hora de eu tomar nas mãos as rédeas da minha vida. A partir de agora, o meu fogo volta a estar aceso, de uma vez por todas, me ajudando a chegar num objetivo. E trilhar esse caminho, a partir de agora, é responsabilidade inteiramente minha. A partir de agora, cada vez que eu errar, não vou mais abaixar a cabeça envergonhada e dizer “eu não sei fazer isso bem”. A partir de agora, cada vez que eu errar, vou abaixar a cabeça com humildade e em seguida levantá-la, pedindo “me ensina”?
A partir de agora, a partir do momento em que termino esse texto de 8 páginas no Word, que poucos vão ler, com uma história da qual muitos poderão desdenhar, mas que está disponível pra quem quiser ver e quem tiver ouvidos pra ouvir... Eu assumo perante todos o compromisso de dar cada passo que vai me levar a me tornar muito boa, e de sempre seguir em frente.
E a partir de agora, eu vou conseguir escrever as palavras que serão o título deste post:
EU CANTO!!!