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Thais' posts with tag: espiritualidade
O tornar-se si mesmo não é uma simples busca, uma simples viagem na qual se pode apenas desfrutar da paisagem e refletir sobre ela. O tornar-se si mesmo é uma guerra. A busca se dá a cada batalha, a viagem se dá a cada deslocamento do exército. O exercício terá, sim, seus momentos de contemplação, mas é a prática que tornará a mudança efetiva - assim como a estratégia e o planejamento em si não trazem a vitória. É preciso colocá-los em prática no calor da batalha e estar preparado para os improvisos para que a vitória seja uma realidade.Obs.: Ok, todo mundo sabe diso. Eu só precisava reforçar a idéia pra mim mesma.

Não, eu não tenho dúvidas de que somos encaminhados. Minha fé nos desígnios divinos é inabalável. Acredito piamente no destino e na sincronicidade. Acredito nos olhos daqueles que tudo vêem e que colocam no nosso caminho exatamente aquilo de que precisamos. Porém, acredito também no livre arbítrio. Acredito que nenhuma ação ou decisão é isenta de responsabilidade. Acredito que seguir o destino que nos foi traçado ou que foi escolhido por nós mesmos antes dessa encarnação requer um exercício constante de conexão com o sagrado. E que o orgulho, a teimosia e a ilusão podem nos levar a não enxergar ou a interpretar de forma errada os sinais que nos rodeiam, nos afastando muito do nosso verdadeiro caminho. Acreditar na providência divina é fácil. O difícil é reconhecer a essência de nossos próprios sentimentos e pensamentos, daquilo que nos está levando a agir. É daí que vem a grande dúvida.  É aí que estou agora. Se eu seguir para a direita, posso estar perdendo a grande oportunidade da minha vida. Se eu seguir para a esquerda, posso estar perdendo a grande oportunidade da minha vida. Essa é a angústia.
Enviado pela Iony, no momento certo. Existe uma tribo africana que acredita que cada alma tem sua própria canção; e essa canção é cantada em seu nascimento, na primeira vez que a criança vai para a escola, na sua iniciação da fase adulta, em seu casamento e em sua morte. No entanto, há outra ocasião na qual a tribo toda canta para alguém: quando a pessoa comete um ato anti-social. Não é punição: é o amor e a lembrança da identidade. Quando você reconhece sua própria canção, esta canção lhe fala à alma, ajuda a acordar sua parte divina; então, ela não tem vontade ou necessidade de fazer nada que possa ferir outrem. Um amigo é alguém que sabe sua canção e a canta quando você a esqueceu. Os que te amam não são enganados pelos erros que você tenha cometido, ou por imagens obscuras que tenha de si mesmo. Eles lembram sua beleza quando você se sente feio; sua totalidade, quando você está partido; sua inocência, quando se sente culpado; seu propósito, quando está confuso. (autor desconhecido)
Quando eu estava no primeiro colegial, há oito anos atrás, fiz uma estatueta de argila representano uma mulher grávida pra aula de Educação Artística. É muito simples, tem só a região do tronco nu, desde o pescoço até logo abaixo da barriga, com os braços apoiados sobre a barriga. Por ser a minha primeira estatueta de argila, até que ficou bonita. Com o tempo, acabei me apegando àquela imagem, mais do que a qualquer outra obra que eu tenha feito. Quando voltei a me aproximar do paganismo, ela se tornou a figura central do meu altar, como a representação de uma Mãe que eu sentia muito presente em minha vida, mas que ainda não sabia quem era. Quando descobri que sou filha de Oxum, passei a tratá-la como tal, como minha representação particular de Mamãe Oxum. Era muito bom olhar pra Ela e finalmente poder lhe dar um nome! Ontem eu resolvi reformular o meu altar. Ele não estava mais me passando verdade, sabem? Às vezes isso acontece, e então é hora de tirar as coisas, limpar melhor, mudar as posições, tirar ou acrescentar elementos (ele hoje é bem diferente do que era na época em que postei fotos dele aqui no Multiply). Então tirei a imagem de minha Mãe de dentro do vaso em que costumava ficar, fui lavá-la, e nesse momento um de seus braços se quebrou pouco acima do cotovelo. Prmeiro arregalei os olhos e fiquei assustada, chateada. Logo em seguida me acalmei e pensei que se aconteceu é porque tinha que acontecer. Olhando pra imagem com o braço quebrado, não pude deixa de pensar na Vênus de Milo. Isso foi à tarde. À noite fui pro shopping com meu noivo e um amigo nosso que queria fazer umas comprinhas. Numa loja de CDs achei o Perfil do Zeca Baleiro, vi que tinha a música Mamãe Oxum e fiz uma chantagenzinha pro meu namorado comprá-lo pra mim. Eu sempre faço essas coisas com ele, justamente porque ele sabe que não é pra comprar. Se ele for compar tudo o que eu peço, com certeza vai falir rapidinho, rs... Porém, eu não contava com a astúcia do nosso amigo! O cara foi lá, pegou o CD e comprou pra mim! Fiquei super sem graça, e claro que super feliz e lisonjeada também. Chegando em casa, fui escutar o CD antes de dormir. E além da música Mamãe Oxum, tem também outra música com a seguinte frase: "Braço da Vênus de Milo acenando ciao"... Caí na risada, sozinha.
O ano astrológico de 2008 começou muito bem, com um encontro e uma celebração que marcaram a entrada em uma nova fase da minha vida. Uma fase que me trouxe o convívio ao vivo e a cores e em carne e em osso com pessoas que têm uma visão de espiritualidade semelhante à minha e com quem quero aprender muito. E que me trouxe também o estabelecimento da minha religiosidade prática, já que... Bem, vamos por partes. Vou tentar explicar isso dando a devida importância, mas sem me estender demais, já que o foco do texto é pra ser outro. Eu estava percorrendo um caminho de paganismo e bruxaria em busca de conexão com o Sagrado, de auto-conhecimento e de suprir uma necessidade crescente de retorno às origens. Eu interpretei essa necessidade como uma sede de conhecer melhor minha ancestralidade familiar física, e como descendo de portugueses e italianos, fui tentar conhecer mais sobre práticas antigas desses povos e de outros povos europeus. Comecei a praticar algumas coisas para me conectar com o Sagrado sozinha, muito mais por intuição do que por receitas encontradas em livros, usando e adaptando o conhecimento adquirido de acordo com o que dizia o meu coração. No meio desse caminho, por conta de algo que tenho certeza absoluta que foi um reencontro, acabei indo parar na Umbanda Sagrada, e o que eu senti então, como já disse, foi o encontro com uma ancestralidade que vai muito além do físico. Minha alma e meu coração foram arrebatados, e eu consegui sentir firmeza para delimitar um caminho. Porém, a porta para a bruxaria e para a busca da minha ancestralidade familiar física continuam abertas pelo gosto que adquiri por esse conhecimento e pelas pessoas que conheci, e pretendo que essa porta continue aberta, me permitindo conhecer cada vez mais e trocar muita coisa, o que certamente só irá enriquecer minhas práticas e minha alma. Nessa próxima fase da minha vida, então, terei uma estrada mais estreita a seguir escolhida pelo meu coração, e à sua volta outras estradas e margens floridas que irão tornar esse caminho ainda mais delicioso. Ter celebrado o ano novo astrológico com tanta gente de tantos caminhos diferentes, mas com algo em comum, foi o marco perfeito para o que eu já sabia que seria uma das coisas mais importantes do ano que se inicia. Ufa! Ok, vamos agora ao que deveria ser o foco do texto... Eu sempre acreditei em astrologia, mas nunca entendi lhufas do assunto. Então, é claro que eu nem imaginava quando é que tinha sido o último ano de Marte. Também não sabia direito o que esperar desse ano, já que a minha relação com as divindades relacionadas a Marte têm sido meio conturbada, e eu estou fazendo um esforço pessoal já há algum tempo para tentar compreende-las e fazer as pazes com elas. E, na sexta-feira, alguém me disse que o último ano de Marte foi 2001. Fiz as contas... E então caiu a ficha. 2001 foi um dos melhores anos da minha vida. No âmbito amoroso foi uma bosta, eu tava namorando um cara que era o próprio demo, toc-toc-toc na madeira pra afastar qualquer coisa parecida, e graças a todos os que me protegem por hoje eu estar com o meu noivo querido que não é perfeito mas é gente de verdade e me ama de verdade também. Continuando... 2001 foi um dos melhores anos da minha vida porque eu consegui conciliar quase com maestria todas as atividades que satisfaziam a minha alma. Com exceção de uma, percebo agora, mas disso vou falar mais tarde, talvez em outro post. O que eu fazia em 2001? Eu estava no segundo colegial. Era meu segundo ano numa escola bem mais puxada do que eu estava acostumada, no primeiro ano eu tinha ralado pra caramba pra conseguir me adaptar. Tinha passado madrugadas em claro terminando lições e trabalhos. Agora, não. Eu tinha conseguido me organizar, fazia toda a tarefa do casa no mesmo dia em que ela tinha sido dada, não importava se era pra entregar só pra dali a uma semana. O mesmo com os trabalhos, eu começava a fazer assim que tinham sido passados. Entendia as matérias, tirava notas ótimas, e nunca tinha que me matar de estudar, porque nunca deixava nada acumulado. Eu fazia teatro, também. Foi o mais longe que cheguei no teatro, o mais sério que cheguei nas artes. A turma de um dos cursos de teatro que eu fazia no ano anterior se transformou num grupo de teatro amador, e montamos uma peça pra participar do Festival do Trabalhador. Durante grande parte do tempo tínhamos três ensaios por semana, o que era muito pra um grupo de pessoas que trabalhavam ou estudavam e não podiam se dedicar inteiramente a isso. Não montamos uma peça pronta, não! Nós a escrevemos. Pesquisamos muitas obras, sob a orientação da nossa diretora; primeiro intercalamos cenas consagradas com cenas escritas por nós, e por fim, na montagem final, usamos apenas cenas de autoria própria. E eu me dedicava a uma religião, também. Na época eu era católica, e desde o fim da oitava série participava ativamente da Igreja, no movimento da Renovação Carismática. Em 2001, especificamente, se consolidaram no meu colégio as atividades do GVX (Grupo de Vivência Cristão), um movimento religioso voltado para jovens criado pelos jesuítas e adotado por vários colégios católicos. A participação era voluntária, é claro, mas mais do que o caráter católico... As atividades se voltavam para o desenvolvimento afetivo e moral das pessoas, com a aplicação da religião nos relacionamentos e no dia a dia, o que sempre fez muito sentido pra mim. Era algo que eu simplesmente adorava participar; tanto porque era uma forma de praticar a religiosidade, que é algo que me faz muita falta quando deixo de lado, quanto porque me aproximava de pessoas que eram muito parecidas comigo e com quem eu adorava estar junto. E eu tinha amigos, também. Durante todo o meu período na escola, desde o pré, foi a fase em que eu me senti mais integrada a um círculo de amigos. E nem estou falando dos amigos do GVX, esses eram outros; nessas atividades eu podia estar próxima de colegas de outras séries ou mesmo dos professores que tocavam o projeto. Estou falando agora dos amigos da minha classe, do segundo colegial. Pelo que eu me lembro, nos dávamos muito bem, eu não era excluída, não tinha rivalidade com ninguém... E eu tinha um grupo de amigas muito gostoso, que preparava festas surpresas no aniversário de cada uma. Uma delícia! Tinha o mané do meu namorado na época, é verdade; como ele era da classe, não dá pra esquecer desse detalhe falando dos amigos da classe. Aliás, ele era A pessoa com quem eu tinha rivalidade. Aliás... Hummm... Que análise interessante... No fim do ano, pouco antes de terminarmos, ele me fez estender essa rivalidade a um grupo de pessoas, ao escolher participar de um grupo da outra classe pra apresentar um trabalho em forma de teatro. Cada classe tinha dois grupos, um que apresentaria um teatro e outro que apresentaria um vídeo. Eu fiquei no grupo do teatro da minha classe, e ele ficou no grupo do teatro da outra classe, pra fazer o trabalho com dois de seus amigos. Eu fiquei emputecida com o fato de ele ter deixado de fazer o trabalho comigo pra fazer com os amiguinhos dele da outra classe. Bem... Não preciso dizer que foi uma competição acirradíssima pra ver quem apresentaria a melhor peça, com direito a estratégias e puxadas de tapete. No caso das puxadas de tapete, sempre partiam do grupo dele, já que eu gosto de jogar limpo. Essa época em especial foi um inferno, super tensa, mas me rendeu a alegria enorme de ver a nossa peça arrasando com a deles no dia da primeira apresentação. Eu simplesmente não consigo lembrar dessa situação toda sem dar um sorrisinho do tipo CHUUUUUUUUUPA!!! Não preciso dizer também que o namoro terminou dias antes das apresentações. A melhor coisa que podia ter acontecido. Resumindo: organização e disciplina pra conciliar os estudos, um grupo de teatro amador e um movimento religioso; um grupo de amigas realmente parceiras (que infelizmente, se desfez nos anos seguintes, mas que na época era verdadeiro); todo o meu espírito de rivalidade concentrado em um foco (de maneira nada saudável, principalmente por o foco ser o cara com quem eu estava namorado) e me permitindo no fim saber o que é o sabor da vitória. É, eu acho que estou começando a entender o que esperar de Marte... Que venha, então! Depois de fazer esse balanço sobre meu último ano dele, me sinto muito mais preparada para começar. E também muito mais esperançosa de que esse ano tem potencial pra ser, no mínimo, bem divertido.
 | Pan Dea | Mar 18, '08 10:57 AM for everyone |
O pai chega pro filho de 8 anos: - Filho, precisamos ter uma conversa sobre como nascem os bebês. E o menino, desesperado: - Não, pai!!! Por favor, não me conta! Eu não quero saber!!! - Mas por quê, filho? Você não quer saber como nascem os bebês? - Não!!! Com 6 anos eu descobri que o Coelhinho da Páscoa não existe. Com 7 eu descobri que o Papai Noel não existe. Se agora eu descobrir que os adultos não trepam, não vejo razão pra continuar vivendo!!! Essa semana vi um episódio de Charmed (pra quem não conhece, é um seriado genial e engraçadíssimo sobre a luta de três irmãs bruxas contra o Mal) que me fez lembrar de um assunto sobre o qual já pensei muito. As irmãs foram chamadas pra ajudar numa briga perto de um lago. No fim da confusão, derrotados os inimigos, elas puderam ver o objeto que foram chamadas a defender: uma espada presa numa pedra. Levaram a pedra pra casa e Paige e Piper começaram a discutir se aquela seria Excalibur, a espada do Rei Arthur (ah, pra quem não sabe, o seriado se passa nos dias atuais). Paige: “Você nunca acreditou na história do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda?” Piper: “Sim, acreditei. Até os 7 anos de idade! Depois eu cresci e passei a viver no mundo real!” Paige: “Ah, sim! Depois você cresceu e passou a lutar com demônios e dragões!” Guardadas as devidas proporções da fantasia do seriado, eu sinto que é isso que acontece nas nossas vidas. Quando somos pequenos, vivemos rodeados por histórias e desenhos animados de bruxas, fadas, duendes, sereias, animais que falam, fantasmas... Depois vamos crescendo e começa a ladainha do “não existe”. “Bruxas não existem”. “Fantasmas não existem”. Esses são geralmente os primeiros a serem detonados. Depois nos ensinam que animais são irracionais e não pensam, muito menos se comunicam com o ser humano. E aí um a um, fadas, duendes, personagens de lendas e mitologias, são detonados sem dó. Curiosamente, na maior parte das vezes o Coelhinho da Páscoa e o Papai Noel são os útimos a serem detonados do imaginário infantil. Curiosamente também se ensina às crianças que fadas madrinhas não existem, e que em vez disso deve-se rezar para o anjo da guarda. Um belo dia, papai kardecista me ensina sobre espíritos. “Quê??? Fantasmas existem?”. Mais tarde, descubro que bruxas existem, SIM, e que estão espalhadas à nossa volta seguindo sua religião. Descubro ainda que os elementais existem, e que, pior, aquele monte de deuses que me disseram que os gregos eram tão ingênuos em acreditar, existem também. Aí descambou, né? Generalizei. Adotei a seguinte postura: “tudo existe, até que me provem o contrário”. No que depender de mim, as crianças que estiverem à minha volta vão saber pelo menos que: “Olha, tem gente que acredita, tem gente que não. O que dizem sobre isso é blá, blá, blá e blá. Eu acredito. E você?”. E provavelmente depois disso vamos ter uma conversa muito gostosa e engraçada sobre tudo o que vai dentro da cabecinha dela. E já não acharei que estou ficando louca se um dia eu vir anões saindo da terra, pequenas mulheres com asas de borboleta ou rabo de peixe, ou ainda um menininho negro de gorro vermelho e uma perna só. E posso dizer que, assim, a vida fica muito mais gostosa. (Agora, se eu vir pela janela um trenó puxado por renas dirigido por um motorista de roupa vermelha, confesso que vou pensar “Uau! Dessa vez a Coca-Cola se superou mesmo, hein?”)
Há tanto que eu queria dizer por aqui e não disse... Mas agora tenho a mão amiga do tempo e a mente tranqüila para contar os últimos acontecimentos. Como ficou enorme, coloquei subtítulos claros pra vocês podem ir ler direto o que mais interessar... Mas quem tiver paciência de ler tudo vai perceber mais associações que os outros, hehe... SOBRE DATAS DE FAMÍLIA Houve mais uma tarde deliciosa no Viver Alternativo da qual não falei. Dessa vez não tão intimista, já que foi muito mais gente; mas foram possíveis muito mais trocas. Reencontrei pessoas que admiro e conheci gente nova. Aprendi mais sobre druidismo, que acho lindo; mais cálculos de arcanos; pude dar um novo sentido às datas importantes pra mim e pra minha família; participei de uma vivência com música que me fez perceber o óbvio: que não pode haver espiritualidade pra mim sem trabalhar com corpo e música. Faz tão parte de mim, como simplesmente ainda não tinha percebido que não poderiam ficar de fora da minha busca? Sobre as datas... Sobre o ressurgimento e a ressignificação de tradições... Percebi como tinha avó materna tinha feito isso e como eu estava deixando de dar a devida importância ao que é tão fundamental para ela. Sua família, grande, de jeitão italiano, com mulheres fortes e dezenas de primos colados uns nos outros, costumava se reunir nos Natais na casa de seu irmão, meu tio-avô. Pessoas foram parando de ir, enquanto novas chegavam: as famílias de meu e minha mãe se uniram duas vezes, pelo casamento deles e de uma sobrinha de meu pai com um primo de minha mãe, fazendo com que minha família paterna também passasse a freqüentar essas festas. Com o passar do tempo e os casamentos e compromissos dos mais novos, a quantidade de pessoas começou a diminuir. Com o divórcio causado por um relacionamento extra-conjugal de um dos filhos do tio-avô, a família foi dividida pela polêmica. Mais pra frente, um tio de minha avó causou uma grande briga entre meu pai e minha mãe e o irmão de minha mãe. Nessa época, com as festas de Natal já minguadas e sem a possibilidade de reunir familiares brigados na mesma mesa, deixamos definitivamente de freqüentar as festas. Foi então que minha avó começou a montar grandes presépios em seu apartamento. Ela sempre gostou muito de trabalhos manuais e decoração, sempre quem vinha nos pressionar a arrumar a casa para o Natal, mas nunca a vi fazer nada como aquilo. Fechou metade da sala para o presépio. Com o passar dos anos, foi juntando e confeccionando mais e mais artigos de Natal e Papais Noéis, que espalha por toda a casa, e o presépio gigante foi transferido para um dos quartos, para que quem viesse visitá-la pudesse ficar à vontade na sala. A fama da decoração de Natal e do presépio gigante se espalhou, e hoje em dia a cada Natal minha avó convidada cada núcleo da família a visitar sua casa para ver sua obra. Da família que antes se reunia toda sob o mesmo teto em um só dia, grande parte agora passa por debaixo de outro teto espalhando-se por todo o mês de dezembro, sem se encontrar, mas deixando sua energia no mesmo local. É a peregrinação ao presépio de Dona Ida. Posteriormente, relações se reestabeleceram, como a de minha mãe e seu irmão, e outras se quebraram, com o divórcio de meu primo materno com minha prima paterna. A reunião antiga nunca voltou a ser mesma, mas aparece transformada na figura de uma nova anfitriã.  Sobre onde eu descobri o que é se sentir uma deusa Planejei este ano deixar um pouco de lado o grupo escoteiro pra fazer alguns cursos que cairiam nos fins de semana. De qualquer maneira, estava um pouco desanimada com o trabalho no escotismo, assombrada pelo monstro do tempo e pelo fantasma da minha timidez, e também cansada do longo trajeto até o grupo (entrei de cara num grupo que fica do outro lado de São Paulo, e apesar de existirem grupos mais perto de casa, acabei me encantando com esse e pegando amor ao lenço). Chegou 2008, um dos cursos que eu queria fazer não existe mais, e o outro me tomará apenas um mês e meio, me tirando qualquer desculpa para me afastar do grupo. Pra completar, o treinamento de chefes desse ano, chamado Indaba, foi feito na cidade de Socorro (que por algum motivo eu adoro), num hotel com esportes radicais e todas as despesas pagas pelo grupo. Conviver com aquela gente é muito bom, e passar pelo treinamento sempre dá uma carga extra de ânimo. Receber de mão beijada a oportunidade de estar no meio da Natureza num lugar como aquele, então... Nem se fala. Como tenho hérnia de disco, não pude fazer tudo o que eu queria, como o arvorismo e o rapel. Fiz uma tirolesa de 1km, e apesar do meu escândalo antes de pular, quando terminou tudo o que eu queria era voar novamente sobre o vale as árvores. E fiz bóia-cross. Há tanto tempo não entrava num rio! Tive medo de não aproveitar a beleza de tudo, já que precisei tirar os óculos e não tinha levado as lentes de contato (tenho uns 4,5 de miopia). Mas de uma foram inexplicável, no meio daquilo tudo, eu consegui enxergar e sentir a beleza daquilo tudo de uma forma que me deixou boquiaberta. Pedi licença e me senti honrada ao entrar na água. Ok, eu tinha as partes mais sensíveis do corpo protegidas por neoprene, mas não precisam contar pra ninguém que eu sou covarde pra água gelada, ta? Afinal, se não tivesse o neoprene eu iria do mesmo jeito. No começo dei risada com as pessoas se atrapalhando no remanso, senti frio na barriga nas corredeiras, ri mais ainda com as pessoas caindo e acabei caindo por causa disso... Me diverti como nunca. E ainda fomos abençoados pela chuva que caiu em parte do curso do rio. No fim, no remanso mais longo, acabei ficando mais isolada e pude admirar embasbacada e em silêncio a água marrom misturada à terra, o sol aparecendo por trás das folhagens das plantas altas das margens, as grandes flores brancas do caminho,a luz refletindo nas gostas de água... Não estou acostumada a me sentir bem em silêncio. Naquele momento, eu me senti. E descobri também naquele momento como é se sentir uma deusa. (Essa foto é realmente do rio onde estive)  GRUPO DE TAROT Pensei que este seria mais um mês em que ficaria só na vontade de ir no Grupo de Estudos de Tarot. Pelas minhas contas, cairia no dia seguinte à festa de 15 anos da minha irmã, na qual ficarei acordada provavelmente até umas 6h da manhã. Não ia rolar. Fora isso, não estava entendo o meu O Mago de meia lunação (já que eu pretendia tirar outro arcano na Lua Nova). No fim, o grupo foi em outro domingo, fiquei sabendo dias antes, e consegui ir. Chegando ao Ibirapuera eu nem acreditava que estava lá. Levei o Tobby comigo pra passear um pouco e conhecer as pessoas. E também porque ninguém me conhece completamente sem conhecer o Tobby. Eu tinha uma palestra sobre astrologia pra ir mais tarde, teria que sair mais cedo do grupo pra isso, mas senti que deveria ficar lá, e fiquei. Que delícia conhecer gente cujas idéias me fazem pensar tanto! Dar forma a rostos cujos traços eu já conhecia, mas que cara a cara parecem tão diferentes! Dar vozes às palavras que tantas vezes ressoam em minha mente! O Tobby, blasé como (quase) sempre ficou quieto o grupo inteiro e ignorou chamados ou cheirou pés quando bem entendeu. Mas ficou deitado escorado na Cássia e lambeu os calcanhares dela. Além, é claro, de comer das comidinhas deliciosas que as pessoas levaram. Acabei percebendo o quanto estava cega em relação ao meu Mago. Conheci novos caminhos – fui a um centro de Umbanda – por curiosidade, gosto e necessidade durante sua regência, e tive disso sensações boas e ruins. As ruins, no caso, não me amedrontaram, só me fizeram querer ir atrás pra saber o que tinha acontecido. Eu não tinha percebido que O Mago poderia estar indicando que esse caminho que comecei a conhecer poderia ser o meu. Conheci também uma pessoa que em pouco tempo eu senti que conhecia por toda a vida. Essa pessoa me chamou pra ir ao seu centro de Umbanda. Essa pessoa também tirou pra mim o meu arcano dessa lunação: A Lua. O desconhecido me espera.  UMA ANCESTRALIDADE PRA ALÉM DO SANGUE Decidi ir ao centro da Carol, e a Paula nos deu carona. Paramos primeiro num ponto pra que minha mãe fosse buscar o Tobby. Por ser preocupada demais, minha mãe geralmente me dá uma baita bronca e coloca mil empecilhos quando vou a um lugar que não estava nos planos dela, ou onde ela não conhece ninguém. Dessa vez, ela não disse nada. Quem conhece minha mãe sabe que esse é um grande sinal. Já no centro, passei no meio da gira pra ir ao banheiro e pra Carol se trocar. Naquele caminho curto algo tão forte me tomou que foi difícil segurar até a porta do banheiro. Mal abri a porta e entrei, caí no choro. Um choro emocionado e difícil de controlar. Um choro sem nenhuma tristeza. Um choro que não vinha de mim, e ao mesmo tempo saía do fundo do meu coração. Carol me olhou me disse o que há tanto tempo me pergunto olhando pra imagem de mulher grávida que eu mesma fiz há anos atrás e que hoje é a figura central do meu altar. Ela me disse quem é minha Mãe, e de repente, mesmo sem conhecê-La, tudo fez sentido. “Vem se encontrar!” Assisti ao resto da abertura dos trabalhos me sentindo assistindo a uma festa à qual tive a grande honra de ser convidada. Bati palmas e balancei o corpo no ritmo das músicas e quis cantar o que eu não sabia. Olhei maravilhada pra todas aquelas manifestações. Comecei a me sentir em casa. Na música dEla, mais lágrimas brotaram dos meus olhos como uma cachoeira. Conversei com uma entidade que eu quis abraçar todo o tempo, e que me disse de um jeito tão delicado tanta coisa que eu precisava ouvir. Posso agüentar apanhar depois, mas preciso me sentir acolhida. E eu me senti assim. Terminei a noite comendo e conversando com gente que eu tinha acabado de conhecer e com quem eu me sentia muito mais à vontade do que com grupos que conheço há mais de ano. Percebi ali que tinha perdido uma das pulseiras de ouro que enfeitavam meu braço. Pensei que talvez os elementais da terra tenham gostado dela e a guardado. Ou então mais alguém que goste de ouro... Em casa, procurei saber quem era Ela, apesar de já senti-La. Li o que pude encontrar, vi o que pude ver, e mesmo sabendo que esse conhecimento é quase nada, é como se eu soubesse exatamente quem Ela é, é como se eu estivesse em seu colo. Meu peito se encheu de alegria e de orgulho, e repeti por muitas vezes de quem eu era filha. Fez tanto sentido que só pode ser verdade. No dia seguinte, acordei bem disposta como não me sinto há anos. Eu não me lembrava mais que era possível se sentir assim. Todo o peso da minha alma havia desaparecido, e eu podia fazer o que quisesse. O tempo era novamente meu amigo, e era (sem desmerecer todas as bênçãos recebidas e todos os bons momentos vividos até então) como se minha vida tivesse acabado de começar. E como se eu tivesse descoberto uma ancestralidade pra além do meu sangue.  ASSOCIAÇÕES E SINAIS Mais tarde, fiz associações que talvez depois alguém me avise que estão erradas, mas que por hora fazem muito sentido. Perguntei no centro se Ela era também Nossa Senhora da Conceição, por ouvir esse nome numa música. Não, não era, era Nossa Senhora Aparecida. Porém, alguns sites dizem que em algumas regiões do Brasil ela é sincretizada com Nossa Senhora da Conceição, então, alguma coisa de Conceição ela deve ter. A mesma Conceição que deu origem à Nossa Senhora da Escada, cuja origem em Portugal ficava às margens de um rio. A mesma Senhora da Escada que está no centro do altar da igreja onde fui visitar São Longuinho duas vezes por ele e São Francisco terem trazido de volta o Tobby. O único lugar nesse mundo onde senti a necessidade de chorar lágrimas de cachoeira além do centro. O lugar onde encontrei também a Rosa Mística, que me acompanhou toda a adolescência e enfeita meu altar, e que em uma de suas aparições, na Itália, se apresentou como a Imaculada Conceição. Portugal e Itália, de onde vieram meus ancestrais de sangue. Um dos sites que vi dá uma lista de plantas que pertencem a ela, sendo que uma delas é o Ype Amarelo. O ype amarelo em frente ao qual o Tobby foi encontrado, o ype amarelo que dava nome à casa da única pessoa que abriu a janela quando eu gritava por ele desesperada pela rua. E no dia seguinte ao que enfim descubro de quem sou filha, uma amiga querida e distante me presenteia dizendo que sente uma emoção inexplicável por mim, e que mesmo sem nunca ter me visto, me sente como sua filha. E com isso meu dia já maravilhoso se torna perfeito.  O que dizem sobre Ela: http://www.rosanevolpatto.trd.br/deusaoxum.htm http://guardioesdaluz.sites.uol.com.br/oxumafro.htm http://www.mulhernatural.hpg.ig.com.br/trablux/oxum.htm http://www.terreirodeyansa.hpg.ig.com.br/orixa/oxum.htm http://www.thaliatook.com/AMGG/oshun.html Onde fazer esportes radicais: http://www.parquedossonhos.com.br/novo/default.asp
Infelizmente, eu não tenho essa música em mp3, não vou conseguir baixá-la agora e não sei passar do CD pra mp3. Quem puder, procure e baixe essa música. Vale a pena. Por algum motivo, ouvir e dançar essa música me faz sentir mais feminina do que em qualquer outro momento da vida. E quando faço isso, nunca sinto que estou sozinha. A letra e a expressão "ae ae amayanga, bereketou, iamayanga" são da Daniela Mercury e a tradução em Iorubá é de Angélique Kidjo. As duas cantam a música. Eu não tenho nenhuma intimidade e não sei quase nada sobre os Orixás, mas gosto de ouvir o som do nome deles. Isso me toca de alguma maneira. Por algum motivo inexplicável. DARA
eu vi mulheres comuns virando rainhas eu vi um povo inteiro perseguindo a poesia eu vi a rua bela, bela como elas enfeitadas de nanãs, iansãs e oxuns e iemanjás
mori omon kekere towa dje olorio mori awon arugbo to n'fe kowi mori obinrin to dara kpelou onan to dara monfe ri inanan, iiyansan, ioshun, yemandja
branca, balança suas ancas branca, da cintura bem-feita deita, deita e me encanta entre congos e sambas e sambas e congos congos e sambas
preta, preta, preta, preta desfile sua nobreza, mostre sua beleza se enfeite que a rua se enfeita
branca, wa djo foun mi o mm branca, dje kiri idjore o wadjo, wadjo, wa korin o entre congos e sambas e sambas e congos e congos e sambas
preta, preta, preta, preta desfile sua nobreza, mostre sua beleza se enfeite que a rua se enfeita
eu vi a rua bela, bela como elas enfeitadas de nanãs, iansãs e oxuns e lemanjás
mori obinrin to dara kpelou onan to dara ewadjo foun nanan, iyansan, ioshun, yemandja
ae ae amayanga, bereketou iamayanga
 | Sonhos | Feb 29, '08 1:14 PM for everyone |
Ai, tá bom, já passou da hora de escrever sobre esses dois... E ainda tem mais coisas que já passou da hora de escrever sobre! No Carnaval fui viajar pra "quitenete" (como se escreve isso?) da minha avó em Santos. Fomos eu, ela, minha irmã, meu Jorginho (que está correndo livre pelas nuvens), e o Bidu, cachorro da vovó. Uma noite, me assustei com um barulho enorme e abri os olhos. Vi uma parede com dois pentagramas dourados, e algo de lilás, que não sei se era a própria parede ou um tecido pendurado em algum lugar. O susto com isso foi maior do que com o barulho. Sentei na cama e gritei o que pra mim não foi um grito pra fora, mas um grito pra dentro, abafado, um "sugar" de ar. E de repente... Pronto. Eu estava de volta. Minha irmã e minha avó disseram que acordaram com o meu grito, e não com o barulho. Naquela hora não vimos mais nada, mas na manhã seguinte vimos que o vidro da janela estava quebrado. Talvez alguém tenha atirado uma pedra (o apartamento é no primeiro andar) ou a janela de fora tenha batido com o vento. Minha irmã quis saber por que foi que eu gritei. Ela tem essa mania, de achar que todos os meus gritos são em vão. Posso ter batido a cabeça, levado um tombo, um martelo pode ter caído no meu dedo... Ela quer saber "mas por que vocês precisou gritar?". O susto com o barulho não bastava como motivo? Não. Então contei a ela sobre a parede com os pentagramas. Ela quase rolou de rir e ainda soltou essa: "Viu, fica se metendo com bruxa... É isso que dá!". Ajudou muito. Fiquei com a pergunta na cabeça... "Pra onde é que eu fui?". Eu tinha a sensação muito forte que não tinha sido só um sonho, eu realmente estava em outro lugar. Mais ou menos uma semana depois, já em São Paulo, tive outro sonho. Eu estava conhecendo a casa de alguém, outras pessoas estavam comigo. Eu não me lembro de ter visto o dono da casa, mas tinha a sensação de que era um homem. Eu estava numa varanda vendo o jardim, um jardim muito grande, parecido com o da casa de uma amiga minha, e estranhei não estar vendo o lugar onde ele (o dono da casa) cultivava as ervas que usava. Até que avistei à esquerda, encostado numa parede, um pedaço de terra em forma de quadrado com as ervas, e ainda comentei com a pessoa que estava do meu lado: "Ah, lá estão as ervas que ele cultiva pra usar! Bem que eu estava estranhando não encontrá-las, afinal, alguém como ele não iria deixar de cultivar as próprias ervas!". Depois desse segundo sonho, a sensação de estar indo pra algum lugar ficou ainda mais forte. Eu sinto que houve um terceiro sonho, mas não consigo me lembrar... Hum, acho que já passou da hora também de eu criar vergonha na cara e deixar um bloco de anotações do lado da cama pra anotar os sonhos na hora que eu acordar, hehe...
A primeira reação foi prender a respiração. O susto. Foi a primeira vez, mas acho que o susto vai me acompanhar até a milésima. Logo tive que tomar a decisão de abandonar uma promessa de trabalho em um lugar onde eu ficava muito feliz. E, conseqüentemente, me afastar de pessoas lindas que conheci. Depois, aquela sensação de estar me afogando em tudo o que eu sou, que estava me paralisando, me impedindo de começar a agir, me deixando simplesmente existir, e mais nada, foi passando. Pude, enfim, começar a agir e seguir com a vida. Por fim, o grande rito de passagem: minha formatura. Um mundo no qual estive mergulhada por dois dias inteiros, nos quais só fiz respirar o momento. A celebração pelo fim dos 5 anos mais transformadores da minha vida, como mulher, filha, amiga, namorada, bicho da espécie humana. A passagem definitiva e irreversível pra vida adulta. Com a lunação quase no fim, pensei que já tivesse acabado. Estava pronta pra agradecer a todas as finalizações, a todas as mudanças, a todas as lições. Porém, ontem, quando cheguei em casa tarde da noite, recebi um lembrete. Um lembrete que me diz, no mínimo, pra não apostar no fim antes do tempo. Jorge, meu primeiro camundongo, o mais manso, estava morto. Não que isso seja ruim. Não chorei, como por outros. Na verdade, a sensação foi de alívio. Jorge provavelmente era o bode expiatório de toda e qualquer energia ruim que pudesse passar por essa casa. Enquanto os outros animais, inclusive os outros camundongos sujeitos ao mesmo tratamento, estavam saudáveis, Jorge estava sempre doente. Desde muito novinho tinha uma coceira insuportável na região do pescoço, que o fez se coçar até arrancar pedaços das orelhas. Tratei com mil coisas, fizemos exames; nenhum resultado, nenhuma causa detectável. O jeito era tentar controlar com tratamentos paliativos, tarefa nada fácil. Agora, nos últimos meses, estava também com um probleminha no ânus e no intestino, um ferimento que não cicatrizava e o fazia perder muito sangue. A morte dele foi o alívio de todas essas dores. E o alívio também por minha culpa de vê-lo sofrer tanto, por mais egoísta que isso seja. Sua morte, como a de qualquer um de nós, era inevitável, tenho certeza disso. A lição não foi a morte em si. Foi o momento. A morte quase no fim da lunação, depois de outros fins, quando eu já não esperava nada. Tanto tempo de problemas... Por que agora? Vá em paz, Jorginho. Que Francisco de Assis cuide de você. Vou sentir saudades.
Eu estou tendo problemas cada vez maiores com São Paulo. Tudo é muito longe, o trânsito está cada dia mais enlouquecedor. E já não adianta me açoitar por ter medo de dirgir, porque de carro a coisa não está muito melhor, não. E eis que encontro um lugar D-E-L-I-C-I-O-S-O a 40 minutinhos de ônibus da minha casa (eu não chego em lugar nenhum que eu costume ir nesse tempo) ou a 20 minutinhos de carona da mamãe. Espaço Viver Alternativo. Cheguei pra tarde de oráculos um pouco mais tarde que o horário marcado, mas acabei sendo a primeira visitante a chegar. E a tarde começou numa conversa sobre tarô, num quintal com plantas, velas, imagens, um aquário enorme e um passarinho descansando em sua gaiola excepcionalmente fechada (sim, porque normalmente ele fica solto). Logo chegaram mais duas visitantes, a conversa sobre tarô esquentou, e passamos aos finalmentes começando a palestra oficial. Bem no dia seguinte ao que eu total e completamente por acaso descobri meu arcano pessoal. Mais um tanto, e chega a Pietra! E o abraço que ela me deu logo de cara tranqüilizou boa parte do meu tormento sobre o quanto eu encho o saco das pessoas-que-sabem-mais-do-que-eu por aqui. Começou a palestra dela, sobre o Oráculo de Delfos, seguida de uma palhinha sobre Bruxaria Italiana. E ouvir essa mulher falando dos deuses é como ouvir alguém falando de seus amigos, de sua família. Dá a impressão que a qualquer momento o celular dela vai tocar e vai ser um deles convidando-a pra tomar uma cervejinha por aí. Não tem como escutá-la falando e não perceber o quanto isso é palpável, concreto. Esclarecedor E enlouquecedor, pra alguém no meu nível. Terminamos a tarde tomando chá e conversando sobre o que foi e o que não foi dito lá. E eu fui embora com aquela sensação maravilhosa de quem viveu uma experiência mágica, e com a sensação de que a vida é exatamente como naquele comercial de cerveja: uma mulher deitada numa nuvem, olhando tudo lá de cima e me colocando no lugar certo na hora certa.
Eu fico aqui tentando entender essa idéia de politeísmo, que não me entra na cabeça de jeito maneira, e de repente me dá um click. Eu acredito que somos todos Um. Mas... Somos pessoas diferentes, cachorro diferentes, ratos diferentes, roseiras diferentes, papagaios, periquitos e afins diferentes. Sendo assim, a mesma regra poderia valer pros deuses. Se somos Um, mas as pessoas são diferentes... Se somos Um, mas o Tobby é diferente do Bidu... Então por que também os deuses não podem ser diferentes uns dos outros? Correto?
Eu nunca entendi muito bem essa história de que não existe o bem e o mal. Está certo que nunca fui muito dada a explicações de paraíso ou danação eterna; eu sempre me identifiquei mais com uma visão reencarnacionista das coisas, com seus umbrais e colônias e a transição dos espíritos entre um e outro, já que a evolução é possível. E a evolução seria, nesse caso, caminhar rumo ao bem deixando o mal cada vez mais pra trás. Saber exatamente o que é esse bem e o que é esse mal, aí sim, são outros mil e quinhentos. Enfim. Essa semana eu me senti conectada à chuva de uma maneira diferente. Mal ela começava e todo o meu ser era tomado por um misto de conforto e êxtase. Coloquei a mão pra fora da porta pra sentir seus pingos, arranjei uma desculpa pra caminhar sob ela – não sem ficar um pouco encabulada na frente das pessoas que viam a cena, ainda me preocupo demais com isso. Senti gratidão por a terra estar sendo molhada e o ar purificado. Acontece que, nessa mesma semana, apareceu um passarinho. Um filhote de passarinho ainda mal empenado que foi encontrado no jardim da faculdade e passado de mão em mão até chegar na minha. Decerto caiu do ninho; também, com as chuvas que deram nos últimos dias... Não, o estalo não foi imediato. Passaram-se algumas horas até que eu percebesse o que estava tão claro diante de mim. A chuva. A mesma chuva. A chuva que molha a terra, que limpa o ar, que mata a sede, que enche os rios. É a mesma chuva que derruba ninhos, que derruba árvores, que certamente afoga filhotes de fêmeas que deram suas crias em buracos que pareciam tão seguros e aconchegantes – e eu tenho espasmos de desespero só de pensar nessa última possibilidade. Notem que não estou falando de enchentes ou engarrafamentos. Estou falando do original; do que é, do que sempre foi, do que não tem como deixar de ser. Ainda vai demorar pra eu me acostumar com essa idéia, pra entendê-la completamente – se é que se pode entender completamente. Uma coisa tão simples, tão clara, tão posta em pratos limpos sobre a mesa, e que demorei tanto pra perceber. E agora caiu sobre minha cabeça na forma desse insight assombroso que não me deixa parar de pensar, que já deu muito mais pano pra manga. Sobre evolução espiritual, sobre evolução darwiniana, sobre carma, sobre o ciclo da vida, sobre o objetivo disso tudo. Só entendi muito bem que a minha conexão com a chuva não deveria acabar por causa disso tudo, ou eu estaria contradizendo tudo o que começo a entender. Esse sentimento de veneração que brotou de mim deve continuar, e continuou. E ela, mais uma vez, veio me dar uma lição sobre mim mesma, sobre o quanto faço parte disso tudo, sobre a contradição que há em mim mesma: colocou-me diante de uma situação em que fui obrigada a caminha sob a água, cabeça baixa e corpo curvado pra proteger a gaiola do passarinho, sem conseguir ver pra onde estava indo, só desejando lá no fundo que a água parasse de cair do céu. I`m singing in the rain...
E eu, que já disse que não sou bruxa, foi para o VII Encontro Anual de Bruxos de São Paulo, da Abrawicca... Parecia uma boa chance de captar em um único fim de semana uma quantidade imensa de informações. Sabem como é, um montão de palestras, sobre um monte de assuntos, você simplesmente senta, ouve e assimila. Curiosa e preguiçosa como sou, eu não poderia ficar fora dessa. E agora estou aqui, completamente embasbacada e tomada pela experiência do fim de semana, sentada na frente desse computador, quebrando a cabeça pra encontrar palavras que expliquem o que foi tudo isso pra mim. Foram experiências realmente mágicas... Ouvir as palavras saindo da boca das pessoas. Porque eu leio um monte de coisas sobre paganismo na internet, porque eu converso com pessoas na internet, porque eu até que estou um tantinho por dentro desse mundo que eu admiro, com o qual eu geralmente concordo e que eu quero tanto conhecer; mas eu nunca estive cara a cara com ninguém. Eu até tenho uma vizinha que freqüenta um espaço xamânico, já fui lá com ela, já conversamos bastante, mas esse lugar tem toda uma prática muito própria e singular e parece estar um pouco à parte de todo o resto que eu ouço falar. Estar lá, com gente que eu posso tocar, que eu posso olhar nos olhos, escutando a tradução dessas idéias e desse mundo em as palavras que saem de bocas que eu estou vendo... É simplesmente mais fantástico do que eu jamais pude imaginar. Ser acolhida. Dizer que eu não sei nada, que eu conheço pouco, que eu sou iniciante, e receber o mesmo carinho e atenção de qualquer um ali, ou até mais. Dizer “Olha, moça. Eu sou iniciante, eu não tenho nenhum livro, e eu preciso comprar algum pra trocar meu dinheiro porque estão sem troco pra R$ 50,00 na lanchonete. O que a senhora me recomenda?”, e ver um sorriso enorme se abrir na minha frente, com toda a vontade de ajudar do mundo. Dali a pouco, sentir um braço em torno da minha cintura, e ver que essa mesma senhora estava tendo a preocupação de me levar até o autor do livro pra que ele me desse um autógrafo. Conhecer pessoalmente pessoas abertas e dispostas a compartilhar o que sabem. Ver um palestrante com quem eu mal tinha conversado vir me entregar um cartão dizendo que tinha gostado muito de mim e que queria manter contato. Sentir essa sensação deliciosa de pertença, mesmo estando no meio de pessoas que são uma coisa que eu ainda não sou. Encontrar gente conhecida. Ou melhor, descobrir gente conhecida. Descobrir que aquela amigona do meu irmão que estuda com ele no colégio e de quem ele fala tanto em casa nasceu de mãe bruxa e foi criada como pagã. Assistir uma palestra da mãe dessa garota. Ouvir durante o encerramento uma pessoa importante no evento dizendo que está feliz por encontrar tantas caras antigas, por ver que o tempo passa e as pessoas permanecem, que está feliz por ter conhecido aquela menina quando ela tinha oito anos de idade e ver que hoje ela está tirando carta de motorista. Descobrir que as pessoas que pensam parecido estão muito mais próximas do que a gente pensa. Chorar numa palestra sobre menstruação. Eu que achava que tinha me resolvido com ela. Eu que buscava uma maneira de entender porque as minhas cólicas continuavam tão fortes pensando na minha própria relação com ela. Eu que achava que já tinha entendido tudo. Eu me emocionei. Eu vi aquelas mulheres de vermelho falando sobre sua sabedoria e sobre suas experiências. Eu senti um aperto no meu peito. E eu chorei. E eu teria chorado mais se não tivesse saído correndo ao fim da palestra pra beber um copo de água. Poder dizer pra minha família aonde eu vou e o que eu penso. Não que eles entendam, que achem legal, que queiram compartilhar qualquer coisa. Na verdade, na maior parte do tempo eles dão risada. Mas mesmo esse riso já é um grande passo. Quando eu tinha 13 anos, pendurava um pentagrama no pescoço e dizia que era bruxa, minha mãe brigava comigo e me dizia pra parar de falar essas coisas. O tempo passou, muitas águas rolaram, passei por muitos caminhos e minha postura mudou. E, pelo que parece, a da minha família também. O que antes era proibido, agora é aceitável, ainda que entre risos, ainda que minha mãe me escute falando sobre coisas mínimas, como meus planos de aprender a usar um baralho cigano, e faça uma cara de quem não está entendendo nada. Agora eu posso sentar tranqüilamente no sofá da sala pra ler um livro que tem a palavra bruxaria bem grande e duas vassouras cruzadas estampadas na capa. E, se eu souber lidar com as brincadeiras que aparecem, posso ficar em paz, posso até mesmo usá-las a meu favor. E pra mostrar que está tudo bem, que estou aberta a passar o pouquinho da noção que eu tenho e a pelo menos dizer do que se trata, em vez de ficar brava ou ignorar, eu entrei na dança voltei do segundo dia de encontro com vassourinhas de presente pra todo mundo. Eu ainda estou nas nuvens, essa é que é a verdade. Estou ainda flutuando e feliz com tudo o que vivi, tudo o que aprendi, tudo o que conheci, e é claro, como não poderia deixar de ser, com tudo o que comprei. Gastei uma grana extra, mas valeu a pena. O livro que comprei no primeiro dia, aquele que eu precisava comprar pra trocar o dinheiro, não foi o que a mulher indicou, mas o que minha intuição me mostrou, meu racional aprovou e meu dinheiro permitiu: A Religião da Grande Deusa – Raízes Históricas e Sementes Filosóficas, de Cláudio Crow Quintino. Comecei com o pé direito, ganhando uma linda dedicatória do autor: “que este livro seja capaz de lançar alguma luz sobre um assunto por si só tão luminoso!”. Fiquei satisfeita por essa primeira aquisição, justamente por ser um livro que vai tratar de história e filosofia. Eu me interesso muito mais por esse lado da coisa porque eu não gosto de fazer nada que eu não saiba de onde veio e o que significa. É esse conhecimento que vai me trazer discernimento e dar significado à minha prática futura. Nesse dia comprei também um baralho cigano. No dia seguinte, voltei com mais dinheiro e compre um tarô de Marselha, mais um livro e algumas outras coisinhas. O segundo livro foi bem mais pensado, sentei na frente do computador na noite anterior pra decidir o que eu queria. E claro que o escolhido, como quem chegou até aqui deve ter imaginado por uma passagem lá em cima, foi Bruxaria Hereditária, de Raven Grimassi. Como parte do meu interesse por paganismo vem do meu movimento de tentar compreender as minhas origens, eu tenho mais do que necessidade de conhecer muito melhor a Bruxaria Italiana. Quanto aos novos baralhos... Sempre me interessei mais por tarô, mas algo me diz que vou me dar melhor com o baralho cigano. Não sei, vamos ver, ainda tenho um longo caminho pela frente, que será mais facilmente percorrido no ano que vem, após a minha formatura da faculdade. E já que estou falando sobre esses “instrumentos”, aproveito pra dizer que saí de lá com uma nova visão sobre o uso de pêndulo, meu querido companheiro. Tenho coisas novas pra tentar. Eu poderia ficar horas e horas falando ou escrevendo sobre cada detalhe do encontro, e ainda não seria o suficiente pra descrever tudo o que senti. Só sei que estou feliz, muito feliz. E que eu sinto, enfim, que estou me encontrando.
Os camundongos saíam das gaiolas, não sei como. Escapavam por entre as grades, por debaixo das portas. Eu desesperada tentava pegá-los, mas de nada adiantava. Lá estavam eles fora da gaiola novamente... Acordei um pouco assustada. Quis levantar e olhar nas gaiolas pra ver se estava tudo bem, mas o sono falou mais alto. Um sono que me dizia que estava tudo bem, que não era ali que eu devia olhar. Dormi mais um pouco. Estranho sonhar com camundongos. Eu sempre sonhava com ratos – quem já criou as duas espécies sabe muito bem a diferença. Mesmo depois de muitos meses sem ter mais ratos, só com meus pequenos donguinhos, minhas noites eram povoadas por ratazanas que se multiplicavam desenfreadamente nas gaiolas, machos que sobravam dentro das gaiolas das fêmeas, e mais e mais ratazanas surgiam. Não me lembro de nenhuma vez ter sonhado com meus bichos reais, meus ratos machos como eles eram, Salomão, Almeida, Chico, João, Lester. Ou meus camundongos Jorge, Luna, Celina, Cogumelo. Sempre eram bichos sem nome, a maioria das vezes se dividindo em dois, quatro, oito, cento e sessenta. Mas esse sonho... Esse sonho era real. Eram meus quatro pequenininhos reais, escapando de suas gaiolas reais. Acordei poucas horas depois. Mais um dia tranqüilo na casa nova. A semana da pátria foi perfeita para a mudança, com poucos compromissos na faculdade ficava muito mais fácil reorganizar minha vida e me adaptar às novas tarefas. Era o sexto dia dividindo o espaço e as despesas com uma colega, seus três gatos e sua cachorra – e eles dividindo seu antigo lar solitário comigo, meus quatro dongos e meu cachorro. Só os bichos e eu estávamos em casa. Limpei o quintal, arrumei o quarto, fiz o almoço, me troquei, tudo como de costume. Precisava sair às 15h pra chegar à faculdade a tempo pra atender. Na hora de abrir o portão pra sair, o primeiro choque. Meu Tobby – que nos outros dias tinha ficado esperando pacientemente a uma distância segura do portão, ao lado de sua nova amiga Teça – passa pelo meio das minhas pernas e sai correndo para o outro lado da rua. Eu atiro a bolsa no chão, fecho o portão de qualquer jeito pra Teça não fugir também, e saio correndo atrás dele, gritando seu nome tão alto quanto nunca – até aquele momento – eu tinha me escutado gritar na vida. A rua estava completamente deserta, ninguém à vista pra me ajudar. Não demorou muito pro anteprojeto de sem-vergonha parar pra fazer xixi numa moita qualquer, e eu conseguir pegá-lo. Nesse instante, só nesse instante, aparece um senhor sem camisa vindo não sei de onde, rindo debochado e me perguntando se eu tinha conseguido pegar o cachorro. Só tive energia pra olhar pra ele por cima dos óculos e dar meia-volta em direção à casa. Coloquei o Tobby pra dentro do portão, dizendo pra ele nunca, nunca, nunca mais na vida dele fazer aquilo. Conferi se o portão estava bem fechado, se a tela de arame estava bem colocada. Sim, tela de arame. O portão da casa, logo embaixo, tinha uns 40 ou 50 centímetros de grade bem juntinha; pra cima disso, as grades ficavam mais espaçadas, com pontas de lança entre elas. Naquele espaço meu mestiço de poodle conseguiria, com sorte, passar com algum esforço e muitos arranhões, e sem sorte, morrer entalado na lança. Como a segurança dos meus bichos é prioridade pra mim, o primeiro dia de mudança passou-se quase inteirinho com meu pai e meu namorado colocando uma tela de arame no portão, e prendendo-a bem nas grades com pedaços de arame mais grosso. Aliás, namorado não, noivo. Foi poucos minutos antes da colocação da tela que trocamos alianças. Enfim. Coloquei o Tobby pra dentro do portão, dizendo pra ele nunca, nunca, nunca mais na vida dele fazer aquilo. Conferi se o portão estava bem fechado, se a tela de arame estava bem colocada, e fui pra faculdade pensando no ocorrido. O pensamento foi longe. Foi em tudo o que eu preferiria perder a perder meu cachorro, em tudo que eu trocaria por ter meu Tobby junto comigo. Eu sei que ele um dia vai morrer, e sei que esse dia não está tão longe assim. Afinal, quando ele apareceu na rua da minha casa – casa dos meus pais – todo sujo de graxa, há pouco mais de um ano e meio atrás, ele já tinha uns seis ou sete anos, muitos dentes faltando e uma catarata razoável. Não vou conviver com ele o tempo que eu conviveria com um cão adotado desde filhotinho. Tudo bem, tudo bem, eu posso viver com isso, eu vou encarar de frente quando a hora dele chegar, e vou levar a lembrança dele por toda a vida. O que eu não posso suportar é a idéia de ele fugir, desaparecer, sumir, e eu ficar o resto da minha vida sem saber se ele foi atropelado, se morreu doente na rua, se foi vítima de um desses filhos da puta torturadores de animais que existem aos montes e de vez em nunca aparecem na mídia, ou até mesmo se foi adotado por alguém legal e se viveu muito melhor na nova casa. Mil vezes a certeza da morte dele do que a essa incerteza que corrói por toda a vida. Eu enlouqueceria. Com certeza, eu enlouqueceria. Não sou forte o bastante pra isso. Sou fraca demais. Cheguei à faculdade um pouco mais cedo do que o previsto, conversei com algumas pessoas sobre o que tinha acontecido. Precisava desabafar, precisava que alguém me apoiasse e me dissesse que não ia acontecer de novo. Mas e se acontecesse? E se ele escapasse quando minha colega de casa estivesse abrindo o portão? E se ela não o conseguisse pegar mais? Fui respirando e esquecendo o assunto. Atendi, fiz supervisão, fui convidada uma cerveja na lanchonete com o pessoal. Não podia demorar muito, aquela noite teria o aniversário de uma amiga, precisava chegar cedo e me arrumar antes de meu noivo chegar pra me pegar. Paulinho, ex-colega e atual supervisor do grupo, disse que era véspera de feriado, que estava muito trânsito, e que já que teria que ficar fazendo hora por aquela região mesmo, poderia me dar uma carona até em casa antes de ir pra dele. O argumento me convenceu a ficar e tomar uma lata. Depois de uma tonteirinha e muitas risadas, perto das 21h fomos pra casa. Falei pro Paulinho que podia me deixar ali no cruzamento mesmo, mas ele fez questão de me levar até a porta. Agradeci, desci do carro, e imediatamente percebi que algo estava errado. Só a Teça estava no portão. Abri a porta enquanto o carro ia embora atrás de mim, já chamando pelo Tobby. Fui até o fundo, na esperança de que ele estivesse dormindo no quartinho. Nada. O chão fugiu dos meus pés – a frase é clichê, mas a emoção é literal. Liguei pro Paulinho. “Volta, por favor, o meu cachorro fugiu”. Liguei pra minha mãe. “Vem pra cá agora”. Pela segunda vez no dia me vi largando minhas coisas no chão. O Paulinho chegou, e saímos andando pelas ruas. E eu descobri que sim, podia gritar mais alto que aquilo. Eu gritava o nome dele, em parte pra colocar tudo aquilo pra fora, em parte pra que todo mundo dentro das casas de janelas fechadas me escutasse. Eu sentia culpa, descobri uma culpa que eu nem sabia que existia. E repetia entre os gritos “por que eu me mudei, meu deus, por quê? Eu vou morrer sem esse cachorro, eu juro que vou morrer sem esse cachorro”. Por um instante, parei de gritar, e me senti desfalecer. Senti o Paulo me segurando com força, me pedindo calma. Voltei a gritar, voltei a andar. Paramos um carro pra perguntar se tinham visto meu cão. O motorista nos apontou uma vila com um porteiro, e sugeriu que perguntássemos pra ele. Enquanto íamos até ali, meu pai me ligou, tentando, como sempre, fazer com que eu me controlasse, mantivesse a calma. Falou pra eu orar pra São Francisco, disse que estava orando. Começou a me dizer o que fazer, que não fosse pra nenhum lugar, que voltasse pra casa e esperasse minha mãe, mas eu não quis ouvir. Desliguei o telefone enquanto o Paulinho falava com o porteiro, quis eu mesma perguntar se ele não tinha visto nada. Saindo daquela rua, escutei uma voz chamando. Fiquei perdida até ver de qual casa ela vinha. Duas mulheres e um garoto estavam na janela, me perguntando se meu cão era um basset, um salsicha. Eu disse que não, que era um mestiço de poodle, tosado, cor de champagne. Pedi pra anotarem meu telefone. Na frente da casa, uma árvore e uma placa dizendo “Casa do Ipê Amarelo”, e anunciando aulas de yoga. Rezei pra São Francisco, pra Deusa, pra sei lá quem. Fomos voltando pela rua, até a frente da casa. Vimos um pedaço da tela de arame amassada. Eu não entendia como aquilo estava arrebentado, só agradeci por ver que a lança daquele espaço não estava suja de sangue. O Paulo encontrou no chão os pedaços quebrados do arame mais forte que prendia a tela ao portão. Não acreditei que meu cachorro pudesse ter conseguido fazer aquilo. Comecei a pensar que alguém o tinha tirado dali, que alguém tinha arrebentado o arame da tela. Meu pai ligou de novo. “Não pegue o carro, não vá pra lugar nenhum, volte pra frente da casa”. Sim, eu iria pegar o carro, iria até a delegacia lá perto, e disse tudo isso no telefone sem nem ao menos ter antes pedido ao Paulo que me levasse até lá. Fomos. Queria perguntar para a polícia se sabiam de algum atropelamento de cachorro – a delegacia ficava bem no cruzamento da Corifeu com a Jaguaré. No caminhos, fomos parando e perguntando pra pessoas, em padarias, bares... De repente, comecei a ficar mais calma. Eu andava, ainda com os olhos estatelados, ainda soluçando sem que nenhuma lágrima escorresse pelos olhos, mas com uma certeza dentro de mim. Nem sabia do que era. Só sabia que era uma certeza. Saindo de uma padaria em que paramos, o telefone toca de novo. Era minha mãe. “Acharam o cachorro”. Onde? Quem? “Na Casa do Ipê Amarelo”. Depois que saímos de lá, o garoto que estava na janela foi tocar violão na vila em que conversei com o porteiro. Quando foi entrar, ele e o porteiro viram o Tobby passando pelas grades do portão – que eram bem mais largas que as do meu – e entra |
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