Thais' posts with tag: crônicas
Nem sei bem do que escrever. As palavras estão pedindo pra serem formadas sem sequer se revelarem pra mim antes de serem. É só uma vontade doida de expressar essa coisa que arranha o peito... São as garras da mão que aperta meu coração até quase estrangulá-lo enquanto ele se desespera por bater. E ele bate, bate, bate... Sem saber que está livre. Às vezes ele explode. Sai voando como um foguete. E aí eu o acompanho até as estrelas presa em seu rabo, dançando no ar e rindo da leveza do meu ser. Não rio só da leveza. Rio também do pesar. Rio das garras que me arranham. E a leveza às vezes me deixa séria, taciturna, pensativa. Sei lá. Acontece. Começo a aprender a conviver com as máscaras que me deram. A verdade crua às vezes é a mais eficiente delas. Se eu tivesse cabelos longos, eles agora estariam jogados sobre meu rosto, deixando ver apenas o brilho de um olhar enviesado, convidativo e desafiador.
Cruzando o corredor estreito que levava até a saída, ela sentia um turbilhão agitar seu peito. Sim, estava se sentindo de fora. Sim, queria que ele estivesse com ela. Sim, estava irritada por esperar. E não, não queria se deixar levar por nada daquilo. Já estava bem grandinha pra isso. Por isso estava saindo. Sentou num degrau da calçada e recostou-se na fachada da casa. A cabeça pendia, ora encostada na parede atrás de si, ora com a testa apoiada em uma das mãos. Olhou para os lados e viu a rua escura se esvaziando. Estava sozinha. Sozinha com a noite. E então percebeu que era a sua primeira vez. Seu primeiro encontro com a noite. Sua primeira chance de se entregar à escuridão e ao frio – dentro e fora de si – sem preocupações. Olhou o céu procurando a Lua. Estava escondida, a danada, mas podia ver tudo o que se passava. Tinha aprendido a sentir medo numa situação daquelas. Tinha sido preparada a vida toda pra isso. Resolveu ceder. Deixou o medo vir, tomar conta de seu ser, fazer festa em sua alma. E deixou o medo ir embora. Já não precisava dele. Voltou a pensar que estava sozinha. Agora, o frio sacudia seu corpo. Tinha escolhido aquela condição. O que iria aprender? “A gente aprende a conviver consigo mesmo”, lembrou das palavras do amigo na noite anterior. Sim, enfim tinha chegado o momento de aprender aquela lição. Pra ela, tão difícil. Olhou pro céu novamente. Lembrou-se dos conselhos recebidos há exatas duas semanas atrás, naquele mesmo lugar, no dia em que decidiu mudar o rumo de sua vida. Lembrou-se do que foi dito, de que qualquer momento seria o certo para seguir esses conselhos. E seguiu. Rezou a oração da Senhora do Rosário. Conversou com seu anjo da guarda. Sentiu seu protetor ao seu lado, e depois o sentiu dentro de seu peito. Escutou as palavras sendo ditadas devagarzinho para sua alma. Sentiu necessidade de repeti-las em primeira pessoa, pra assimilar melhor a lição. “Quando eu aprender a me sentir à vontade comigo mesma, vou aprender a me sentir à vontade com os outros”. Esse seria o aprendizado de sua nova jornada. Assustou-se com a voz lhe pedindo desculpas pela demora. Sequer tinha escutado os passos. Tentou disfarçar o momento de epifania. Recebeu um abraço de calor. Sentiu uma mão mais quente que a sua. Seguiu para o que o resto da noite lhe reservava. Tudo acontece na hora certa.
Ontem chegou uma sacola cheinha de calças jeans, doações de umas primas. Na minha família é assim, as roupas vão passando de geração em geração. Antigamente, eu, a mais velha da nova safra, repassava roupas pra uma irmã e três ou quatro primas diferentes. Hoje em dia, eu, a mais baixa da nova safra, recebo roupas de todas as outras. E nessa sacola cheia de calças justas, de cintura baixíssima e mil detalhes, eis que encontro uma pantalona jeans. Não sou muito boa com nomenclatura de roupas, mas dá pra vocês terem uma idéia do que eu estou falando. Uma calça de jeans puro, sem lycra, com a cintura do tamanho certinho, as pernas bem largas e bolsos nas laterais. Quase uma calça big, mas com mais cara de pantalona, mesmo. Meus olhos se iluminaram imediatamente, minha cabeça se povoando de lembranças de muito tempo atrás. A calça ficou perfeita no meu corpo, e hoje, com as barras devidamente ajustadas à minha altura, já pude usá-la pela primeira vez. Revirei os armários, o meu e o da minha irmã, em busca de blusas que ficassem bem, e encontrei uma baby look azul escura com uma estampa pequena de ursinho e uma blusa de lã de gola alta um pouco mais larga que as outras. Exatamente como há tanto tempo atrás. Nos pés, os meus inseparáveis All Stars, substituindo os antigos Dakota Kolosh ou Redleys sem cadarço. E eu me senti novamente com 13 anos. Se fechasse os olhos, podia até mesmo sentir os cabelos compridos caindo pelo pescoço e pelos ombros. Saí pulando e dançando pela casa, aproveitando a lembrança da sensação de um tempo em que eu não precisava fazer esforço pra ser eu mesma, e ainda não precisava crescer.
O pai chega pro filho de 8 anos: - Filho, precisamos ter uma conversa sobre como nascem os bebês. E o menino, desesperado: - Não, pai!!! Por favor, não me conta! Eu não quero saber!!! - Mas por quê, filho? Você não quer saber como nascem os bebês? - Não!!! Com 6 anos eu descobri que o Coelhinho da Páscoa não existe. Com 7 eu descobri que o Papai Noel não existe. Se agora eu descobrir que os adultos não trepam, não vejo razão pra continuar vivendo!!! Essa semana vi um episódio de Charmed (pra quem não conhece, é um seriado genial e engraçadíssimo sobre a luta de três irmãs bruxas contra o Mal) que me fez lembrar de um assunto sobre o qual já pensei muito. As irmãs foram chamadas pra ajudar numa briga perto de um lago. No fim da confusão, derrotados os inimigos, elas puderam ver o objeto que foram chamadas a defender: uma espada presa numa pedra. Levaram a pedra pra casa e Paige e Piper começaram a discutir se aquela seria Excalibur, a espada do Rei Arthur (ah, pra quem não sabe, o seriado se passa nos dias atuais). Paige: “Você nunca acreditou na história do Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda?” Piper: “Sim, acreditei. Até os 7 anos de idade! Depois eu cresci e passei a viver no mundo real!” Paige: “Ah, sim! Depois você cresceu e passou a lutar com demônios e dragões!” Guardadas as devidas proporções da fantasia do seriado, eu sinto que é isso que acontece nas nossas vidas. Quando somos pequenos, vivemos rodeados por histórias e desenhos animados de bruxas, fadas, duendes, sereias, animais que falam, fantasmas... Depois vamos crescendo e começa a ladainha do “não existe”. “Bruxas não existem”. “Fantasmas não existem”. Esses são geralmente os primeiros a serem detonados. Depois nos ensinam que animais são irracionais e não pensam, muito menos se comunicam com o ser humano. E aí um a um, fadas, duendes, personagens de lendas e mitologias, são detonados sem dó. Curiosamente, na maior parte das vezes o Coelhinho da Páscoa e o Papai Noel são os útimos a serem detonados do imaginário infantil. Curiosamente também se ensina às crianças que fadas madrinhas não existem, e que em vez disso deve-se rezar para o anjo da guarda. Um belo dia, papai kardecista me ensina sobre espíritos. “Quê??? Fantasmas existem?”. Mais tarde, descubro que bruxas existem, SIM, e que estão espalhadas à nossa volta seguindo sua religião. Descubro ainda que os elementais existem, e que, pior, aquele monte de deuses que me disseram que os gregos eram tão ingênuos em acreditar, existem também. Aí descambou, né? Generalizei. Adotei a seguinte postura: “tudo existe, até que me provem o contrário”. No que depender de mim, as crianças que estiverem à minha volta vão saber pelo menos que: “Olha, tem gente que acredita, tem gente que não. O que dizem sobre isso é blá, blá, blá e blá. Eu acredito. E você?”. E provavelmente depois disso vamos ter uma conversa muito gostosa e engraçada sobre tudo o que vai dentro da cabecinha dela. E já não acharei que estou ficando louca se um dia eu vir anões saindo da terra, pequenas mulheres com asas de borboleta ou rabo de peixe, ou ainda um menininho negro de gorro vermelho e uma perna só. E posso dizer que, assim, a vida fica muito mais gostosa. (Agora, se eu vir pela janela um trenó puxado por renas dirigido por um motorista de roupa vermelha, confesso que vou pensar “Uau! Dessa vez a Coca-Cola se superou mesmo, hein?”)
Originalmente postado no Café com Dinamite, depois de um monte de interrogatórios e de um post da Ky sobre os famosos Cadernos de Perguntas. O que uma coisa tem a ver com as outras???
Eu tinha 9 anos. Estava na quarta-série. A Carol, aquela pentelha, ai... Vivia me zoando. Por tudo. Era uma baixinha realmente irritante. E eu, bocózinha, cabeluda, quatro olhos, nerd, cdf... A vítima perfeita. Não ficava simplesmente irritada, ficava magoada. Já tinha até apanhado dela, que devia ter a metade do meu tamanho.
Um belo dia, nunca vou descobrir por quê, ela me deu seu Caderno de Perguntas pra responder. Ué, eu??? Eu não era da patota, eu não era uma escolhida, eu não era popular. Fala sério, ela me odiava!!! Ou Não fiz questionamentos. Botei o caderno na mala e levei pra casa.
Mais tarde, em casa, na hora de responder... Aquela coceirinha na mão... Bem, eu despejei no caderno tudo o que estava entalado por tanto tempo de raiva guardada daquela menina. Eu dei um jeito de falar mal dela em quase todas as perguntas. Não lembro bem o que respondi. Só lembro que na clássica pergunta "Quem é sua melhor amiga?" - que geralmente era respondida com uma lista de nomes, pra não queimar o filme com as possíveis próximas respondedoras, e que invariavelmente incluía o nome da dona do caderno - eu respondi algo como "Você é que não é. Depois de tanto tempo me xingando e zoando comigo, você não ia querer que eu respondesse que era você, né?". E no final, no "Deixe um recado para a dona do caderno", eu deixei um recado dizendo que ela teve o que merecia e que enfim eu tinha me vingado dela. E ainda inclui uma risada malévola: "HA HA HA HA...".
Na manhã seguinte, dia de entregar o caderno, uma novidade me aguardava. Uma mancha estranha na minha calcinha. Há um ano e meio eu enfrentava um monte de médicos e discussões de por quê eu estava me desenvolvendo tão cedo e de com qual altura eu iria ficar; portanto, eu já já imaginava o que era aquilo. Contei pra minha avó, ela me deu um absorvente e fui pro banheiro tentar colocar. Tentei lembrar do que minha mãe (quenaquela hora estava no trabalho) tinha me ensinado, rapidamente e cheia de vergonha, algum tempo antes. "Você tira essa fitinha, gruda ali... Ei, pra que lado vai esse negócio grudento?". A coisa é pra ficar presa no seu corpo, certo? Logo, imaginei que o lado grudento era pra ficar virado pra cima, em contato com a pele. Terminei de me vestir e fui pro colégio.
Entreguei o caderno sem dizer nada. Fiquei de alma lavada. Mal podia esperar para que ela lesse e sentisse o efeito da minha vingança maligna. E se ela continuasse a usar aquele caderno, todas a próximas respondedoras leriam e saberiam quem de fato ela era. HA HA HA HA...
Na saída, minha mãe foi me buscar. O primeiro assunto, a menstruação. Ela disse que iria conferir se eu estava mesmo menstruada assim que chegássemos ao seu consultório (ela é dentista, me levava pro consultório depois do colégio e eu ficava lá com ela até o fim do expediente). O segundo assunto, o Caderno de Perguntas! Contei sobre minha vingança, feliz por estar compartilhando com alguém a minha conquista. "O quê??? Você fez isso no caderno da menina??? Você estragou o caderno dela!!! Ela dá o caderno pra você responder e você faz uma coisa dessas??? Isso não se faz!!!". Bem, se eu não sabia o significado de culpa até aquele dia, naquele exato instante eu descobri qual era. na hora já senti um desespero, um peso na barriga, um bolo no estômago, que eu nunca vou esquecer. Fiquei realmente nervosa.
Chegando ao consultório, mamãe foi conferir a minha menstruação. Não entendeu nada ao encontrar o absorvente virado de cabeça pra baixo, e deu risada da minha explicação. Mas era tão pouco sangue que estava ali, só um corrimentozinho, que ela disse que aquilo não era menstruação. Só no dia seguinte, com o aumento do fluxo, ela pôde afirmar que se tratava de fato da minha menarca. Naquela semana eu tinha lido que um estresse muito grande poderia causar a suspensão do fluxo menstrual. "Tá explicado", pensei eu, "fiquei muito nervosa quando a minha mãe brigou comigo por causa do caderno e parei de menstruar!". Assumi essa explicação como verdadeira até não muito tempo atrás.
E o dia seguinte foi dia também de comprar um caderno novinho em folha e levar de presente pra Carol. Logo que me viu, ela já foi dizendo "Pôxa, Thais, você se vingou, hein?". Não com raiva, nem me zoando. Acho que uma pontada tambgém de peso na consciência por tudo o que ela tinha feito comigo até então. Eu pedi desculpas e entreguei o caderno novo. Alguns dias depois, ela veio me entregar o caderno, com um jeito pensativo, ressabiado. "Dessa vez você não vai zoar?", perguntou. Respondi direitinho, como uma mocinha. Acabamos nos tornando amigas, convivendo pacificamente e atré trocando alguns segredinhos, até que a Carol mudou de colégio.
Coincidentemente, ela foi estudar no colégio da minha prima. Então, pelo menos uma vez por ano nos encontrávamos, nas festas juninas. Por algum tempo ela me reconheceu, nos cumprimentávamos, conversávamos. Até que um ano ela não me reconheceu mais. "Oi, Carol, lembra de mim?". " Não". Esqueceu. Ou fingiu que esqueceu.
Mas dessa história de caderno, vingança e minha primeira menstruação... Eu nunca vou esquecer.
 | O sapo | Jan 14, '08 4:18 PM for everyone |
Eu nem sei se era bem um sapo. Não estou muito familiarizada com essas denominações anfíbias. Podia ser perereca, rã... Qualquer coisa dessa família. Não que eu não me importe com a denominação correta. Eu me importo. Chame rato de camundongo ou gerbil de hamster na minha frente pra você ver. Acontece que com os anfíbios eu não estou muito familiarizada, mesmo. Enfim, vamos à história. Tínhamos ido passar o Natal em Guararema, num hotel que à primeira vista parecia um paraíso e que logo começou a nos dar arrepios. Éramos os únicos hóspedes, os donos e funcionários falavam por horas de banalidades e de histórias estranhas de suas próprias vidas e fugiam quando queríamos pagar as diárias, o garçom pedia desculpas por não saber onde estavam as taças de sobremesa... Nada se encaixava. Algo soava estranho naquilo tudo. O clima era pesado, parado, como se numa eterna espera de algo que estivesse para acontecer, como num pesadelo ou num filme de terror. No fim do primeiro dia, nos recolhemos fazendo piadas sobre a possibilidade de nos matarem durante a noite. Meus pais em um quarto; meus irmãos, meu namorado, meu cachorro, meu camundongo e eu, em outro. Ficamos rindo de bobagens e nervoso por um longo tempo, escutando barulhos estranhos e pensando nas vantagens e desvantagens praquelas pessoas de nos assassinarem ali. Quando já estávamos quase desistindo da vigília, meu namorado se virou pra colocar os óculos ao lado da cama e... - Isso é um sapo??? Imediatamente minha irmã pulou e ficou em pé em cima da cama. - Um sapo??? Onde??? Eu odeio sapo!!! Fui olhar a criatura, e realmente, como eu já disse, se era sapo ou não eu não sei, mas era um desses anfíbios esverdeados que pulam. Era tão pequeno que não devia ter nem sete centímetros. - Deixa ele aí, vamos dormir... - Mas e se ele subir na cama? - Olha o tamanho dele, ele não consegue subir nas camas! - Mas e se ele entrar na água do Tobby? Sapo não é venenoso? Com este argumento, meu irmão me convenceu de que deveríamos tirá-lo dali. - Mata logo... - NINGUÉM MATA NADA!!! Abram a janela! Peguei uma toalha de rosto no banheiro... E começou a caçada. O bicho era tão pequenininho que se enfiava nas frestas debaixo das camas. Peguei minha lanterna, meu namorado e eu fomos retirando os colchões, meu irmão em cima da cama, minha irmã pulando de uma à outra com uma agilidade que só um sapo poderia ter. Até que a criatura (o sapo, não minha irmã) foi pros lados do meu cachorro. - Tamara, FICA COM O TOBBY NO COLO!!! Vejam bem, eu sei que sapo não é venenoso. Eu sei que ele só solta uma substância irritante quando é predado. Eu simplesmente não queria o céu da boca do meu cachorro irritado, oras. E nem que o sapo fosse comido, diga-se de passagem. E quanto à água... Sabe-se lá o que é que o sapo podia fazer na água do meu cachorro, não é verdade? Já tínhamos mudado o criado-mudo de lugar, revirado os colchões das quatro camas e eu já estava expert na arte de usar a toalha com habilidade para espantá-lo para lugares mais abertos. Tentei falar com ele, mas os animais não me escutam mais, não sei porquê. De repente, ele foi parar em uma fresta perto do meu namorado. Eu estava numa área maior. Se fôssemos espertos, porderíamos encurralá-lo. Bastava meu namorado passar a toalha com jeitinho atrás dele na direção em queríamos que ele fosse, que eu o pegaria do outro lado. Um, dois, três, e... Pra debaixo da cama. Da única cama sem estrado vazado, ou seja, não conseguíamos enxergar debaixo. Meu namorado não é muito bom em entender armadilhas. E meus irmãos pulando feito pererecas gigantes. - JÁ CHEGA! Thiago, Tamara, se tranquem no banheiro com o Tobby! Toninho, vamos levantar a cama! Aí a coisa começou a ficar feia. Quando perdi o sapo de vista, percebi que qualquer movivmento errado que fizéssmos podia matá-lo. Comecei a ficar ainda mais tensa. Ele não estava debaixo da cama. Passamos muito tempo olhando todos os cantos escuros do quarto com a lanterna, até que o encontramos de volta na fresta onde quase o encurralamos. Passei a toalha atrás dele com jeitinho e... Vitória! Ele foi pro campo aberto! E foi bem pra quina da parede! Agora não tinha como escapar! Joguei a toalha em cima, me debrucei para pegá-lo com cuidado e... Ele pulou na altura do meu rosto. Eu gritei, me joguei pra trás com susto pensando que estivesse tudo perdido, mas pra minha sorte e espanto geral, ele começou a escalar a parede. A essa altura eu já estava um trapo. Comecei a chorar, meu namorado sem entender nada. O sapo subiu, subiu, subiu... Até que pulou e foi parar no espelho da prateleira que servia como penteadeira, a um centímetro da gaiola do meu camundongo. - Tira a gaiola, amor! - Eu já não conseguia mais gritar. Coloquei a tolha esticada sobre o sapo. Meu namorado foi com a intenção de pegá-lo... -Não! Eu faço isso! Segura a toalha direito pra ele não escapar. Tateei a toalha até encontrar o volume. Fechei a mão com todo cuidado que consegui, sentindo-o se desprender do espelho, e atirei fora da janela. Ainda o vi pulando em direção à grama. Aí eu desabei. Chorei copiosamente, soluçando alto. Meu namorado me abraçou. Soube mais tarde que nessa hora meu irmão comemorou pensando que eu tinha esmagado o sapo. O Toninho foi avisar meus irmãos que poderiam sair do banheiro, e voltou a me abraçar. - Mas o que aconteceu??? - Eu... não... queria... matar... o saaaapo... - Mas, Thais, você não matou o sapo! - É... eu... sei... mas... eu não... queriiiia... - Mas você NÃO matou! Até hoje ninguém entendeu o motivo do meu choro, nem eu mesma consegui explicar pra ninguém. Também não consegui explicar por que é que eu disse que ele não conseguiria subir nas camas se ele era capaz escalar a parede até mais do que minha altura. Foi uma noite inesquecível. E o mais importante foi que chegamos vivos à manhã seguinte - nós e o sapo.
Eu nunca entendi muito bem essa história de que não existe o bem e o mal. Está certo que nunca fui muito dada a explicações de paraíso ou danação eterna; eu sempre me identifiquei mais com uma visão reencarnacionista das coisas, com seus umbrais e colônias e a transição dos espíritos entre um e outro, já que a evolução é possível. E a evolução seria, nesse caso, caminhar rumo ao bem deixando o mal cada vez mais pra trás. Saber exatamente o que é esse bem e o que é esse mal, aí sim, são outros mil e quinhentos. Enfim. Essa semana eu me senti conectada à chuva de uma maneira diferente. Mal ela começava e todo o meu ser era tomado por um misto de conforto e êxtase. Coloquei a mão pra fora da porta pra sentir seus pingos, arranjei uma desculpa pra caminhar sob ela – não sem ficar um pouco encabulada na frente das pessoas que viam a cena, ainda me preocupo demais com isso. Senti gratidão por a terra estar sendo molhada e o ar purificado. Acontece que, nessa mesma semana, apareceu um passarinho. Um filhote de passarinho ainda mal empenado que foi encontrado no jardim da faculdade e passado de mão em mão até chegar na minha. Decerto caiu do ninho; também, com as chuvas que deram nos últimos dias... Não, o estalo não foi imediato. Passaram-se algumas horas até que eu percebesse o que estava tão claro diante de mim. A chuva. A mesma chuva. A chuva que molha a terra, que limpa o ar, que mata a sede, que enche os rios. É a mesma chuva que derruba ninhos, que derruba árvores, que certamente afoga filhotes de fêmeas que deram suas crias em buracos que pareciam tão seguros e aconchegantes – e eu tenho espasmos de desespero só de pensar nessa última possibilidade. Notem que não estou falando de enchentes ou engarrafamentos. Estou falando do original; do que é, do que sempre foi, do que não tem como deixar de ser. Ainda vai demorar pra eu me acostumar com essa idéia, pra entendê-la completamente – se é que se pode entender completamente. Uma coisa tão simples, tão clara, tão posta em pratos limpos sobre a mesa, e que demorei tanto pra perceber. E agora caiu sobre minha cabeça na forma desse insight assombroso que não me deixa parar de pensar, que já deu muito mais pano pra manga. Sobre evolução espiritual, sobre evolução darwiniana, sobre carma, sobre o ciclo da vida, sobre o objetivo disso tudo. Só entendi muito bem que a minha conexão com a chuva não deveria acabar por causa disso tudo, ou eu estaria contradizendo tudo o que começo a entender. Esse sentimento de veneração que brotou de mim deve continuar, e continuou. E ela, mais uma vez, veio me dar uma lição sobre mim mesma, sobre o quanto faço parte disso tudo, sobre a contradição que há em mim mesma: colocou-me diante de uma situação em que fui obrigada a caminha sob a água, cabeça baixa e corpo curvado pra proteger a gaiola do passarinho, sem conseguir ver pra onde estava indo, só desejando lá no fundo que a água parasse de cair do céu. I`m singing in the rain...
Os camundongos saíam das gaiolas, não sei como. Escapavam por entre as grades, por debaixo das portas. Eu desesperada tentava pegá-los, mas de nada adiantava. Lá estavam eles fora da gaiola novamente... Acordei um pouco assustada. Quis levantar e olhar nas gaiolas pra ver se estava tudo bem, mas o sono falou mais alto. Um sono que me dizia que estava tudo bem, que não era ali que eu devia olhar. Dormi mais um pouco. Estranho sonhar com camundongos. Eu sempre sonhava com ratos – quem já criou as duas espécies sabe muito bem a diferença. Mesmo depois de muitos meses sem ter mais ratos, só com meus pequenos donguinhos, minhas noites eram povoadas por ratazanas que se multiplicavam desenfreadamente nas gaiolas, machos que sobravam dentro das gaiolas das fêmeas, e mais e mais ratazanas surgiam. Não me lembro de nenhuma vez ter sonhado com meus bichos reais, meus ratos machos como eles eram, Salomão, Almeida, Chico, João, Lester. Ou meus camundongos Jorge, Luna, Celina, Cogumelo. Sempre eram bichos sem nome, a maioria das vezes se dividindo em dois, quatro, oito, cento e sessenta. Mas esse sonho... Esse sonho era real. Eram meus quatro pequenininhos reais, escapando de suas gaiolas reais. Acordei poucas horas depois. Mais um dia tranqüilo na casa nova. A semana da pátria foi perfeita para a mudança, com poucos compromissos na faculdade ficava muito mais fácil reorganizar minha vida e me adaptar às novas tarefas. Era o sexto dia dividindo o espaço e as despesas com uma colega, seus três gatos e sua cachorra – e eles dividindo seu antigo lar solitário comigo, meus quatro dongos e meu cachorro. Só os bichos e eu estávamos em casa. Limpei o quintal, arrumei o quarto, fiz o almoço, me troquei, tudo como de costume. Precisava sair às 15h pra chegar à faculdade a tempo pra atender. Na hora de abrir o portão pra sair, o primeiro choque. Meu Tobby – que nos outros dias tinha ficado esperando pacientemente a uma distância segura do portão, ao lado de sua nova amiga Teça – passa pelo meio das minhas pernas e sai correndo para o outro lado da rua. Eu atiro a bolsa no chão, fecho o portão de qualquer jeito pra Teça não fugir também, e saio correndo atrás dele, gritando seu nome tão alto quanto nunca – até aquele momento – eu tinha me escutado gritar na vida. A rua estava completamente deserta, ninguém à vista pra me ajudar. Não demorou muito pro anteprojeto de sem-vergonha parar pra fazer xixi numa moita qualquer, e eu conseguir pegá-lo. Nesse instante, só nesse instante, aparece um senhor sem camisa vindo não sei de onde, rindo debochado e me perguntando se eu tinha conseguido pegar o cachorro. Só tive energia pra olhar pra ele por cima dos óculos e dar meia-volta em direção à casa. Coloquei o Tobby pra dentro do portão, dizendo pra ele nunca, nunca, nunca mais na vida dele fazer aquilo. Conferi se o portão estava bem fechado, se a tela de arame estava bem colocada. Sim, tela de arame. O portão da casa, logo embaixo, tinha uns 40 ou 50 centímetros de grade bem juntinha; pra cima disso, as grades ficavam mais espaçadas, com pontas de lança entre elas. Naquele espaço meu mestiço de poodle conseguiria, com sorte, passar com algum esforço e muitos arranhões, e sem sorte, morrer entalado na lança. Como a segurança dos meus bichos é prioridade pra mim, o primeiro dia de mudança passou-se quase inteirinho com meu pai e meu namorado colocando uma tela de arame no portão, e prendendo-a bem nas grades com pedaços de arame mais grosso. Aliás, namorado não, noivo. Foi poucos minutos antes da colocação da tela que trocamos alianças. Enfim. Coloquei o Tobby pra dentro do portão, dizendo pra ele nunca, nunca, nunca mais na vida dele fazer aquilo. Conferi se o portão estava bem fechado, se a tela de arame estava bem colocada, e fui pra faculdade pensando no ocorrido. O pensamento foi longe. Foi em tudo o que eu preferiria perder a perder meu cachorro, em tudo que eu trocaria por ter meu Tobby junto comigo. Eu sei que ele um dia vai morrer, e sei que esse dia não está tão longe assim. Afinal, quando ele apareceu na rua da minha casa – casa dos meus pais – todo sujo de graxa, há pouco mais de um ano e meio atrás, ele já tinha uns seis ou sete anos, muitos dentes faltando e uma catarata razoável. Não vou conviver com ele o tempo que eu conviveria com um cão adotado desde filhotinho. Tudo bem, tudo bem, eu posso viver com isso, eu vou encarar de frente quando a hora dele chegar, e vou levar a lembrança dele por toda a vida. O que eu não posso suportar é a idéia de ele fugir, desaparecer, sumir, e eu ficar o resto da minha vida sem saber se ele foi atropelado, se morreu doente na rua, se foi vítima de um desses filhos da puta torturadores de animais que existem aos montes e de vez em nunca aparecem na mídia, ou até mesmo se foi adotado por alguém legal e se viveu muito melhor na nova casa. Mil vezes a certeza da morte dele do que a essa incerteza que corrói por toda a vida. Eu enlouqueceria. Com certeza, eu enlouqueceria. Não sou forte o bastante pra isso. Sou fraca demais. Cheguei à faculdade um pouco mais cedo do que o previsto, conversei com algumas pessoas sobre o que tinha acontecido. Precisava desabafar, precisava que alguém me apoiasse e me dissesse que não ia acontecer de novo. Mas e se acontecesse? E se ele escapasse quando minha colega de casa estivesse abrindo o portão? E se ela não o conseguisse pegar mais? Fui respirando e esquecendo o assunto. Atendi, fiz supervisão, fui convidada uma cerveja na lanchonete com o pessoal. Não podia demorar muito, aquela noite teria o aniversário de uma amiga, precisava chegar cedo e me arrumar antes de meu noivo chegar pra me pegar. Paulinho, ex-colega e atual supervisor do grupo, disse que era véspera de feriado, que estava muito trânsito, e que já que teria que ficar fazendo hora por aquela região mesmo, poderia me dar uma carona até em casa antes de ir pra dele. O argumento me convenceu a ficar e tomar uma lata. Depois de uma tonteirinha e muitas risadas, perto das 21h fomos pra casa. Falei pro Paulinho que podia me deixar ali no cruzamento mesmo, mas ele fez questão de me levar até a porta. Agradeci, desci do carro, e imediatamente percebi que algo estava errado. Só a Teça estava no portão. Abri a porta enquanto o carro ia embora atrás de mim, já chamando pelo Tobby. Fui até o fundo, na esperança de que ele estivesse dormindo no quartinho. Nada. O chão fugiu dos meus pés – a frase é clichê, mas a emoção é literal. Liguei pro Paulinho. “Volta, por favor, o meu cachorro fugiu”. Liguei pra minha mãe. “Vem pra cá agora”. Pela segunda vez no dia me vi largando minhas coisas no chão. O Paulinho chegou, e saímos andando pelas ruas. E eu descobri que sim, podia gritar mais alto que aquilo. Eu gritava o nome dele, em parte pra colocar tudo aquilo pra fora, em parte pra que todo mundo dentro das casas de janelas fechadas me escutasse. Eu sentia culpa, descobri uma culpa que eu nem sabia que existia. E repetia entre os gritos “por que eu me mudei, meu deus, por quê? Eu vou morrer sem esse cachorro, eu juro que vou morrer sem esse cachorro”. Por um instante, parei de gritar, e me senti desfalecer. Senti o Paulo me segurando com força, me pedindo calma. Voltei a gritar, voltei a andar. Paramos um carro pra perguntar se tinham visto meu cão. O motorista nos apontou uma vila com um porteiro, e sugeriu que perguntássemos pra ele. Enquanto íamos até ali, meu pai me ligou, tentando, como sempre, fazer com que eu me controlasse, mantivesse a calma. Falou pra eu orar pra São Francisco, disse que estava orando. Começou a me dizer o que fazer, que não fosse pra nenhum lugar, que voltasse pra casa e esperasse minha mãe, mas eu não quis ouvir. Desliguei o telefone enquanto o Paulinho falava com o porteiro, quis eu mesma perguntar se ele não tinha visto nada. Saindo daquela rua, escutei uma voz chamando. Fiquei perdida até ver de qual casa ela vinha. Duas mulheres e um garoto estavam na janela, me perguntando se meu cão era um basset, um salsicha. Eu disse que não, que era um mestiço de poodle, tosado, cor de champagne. Pedi pra anotarem meu telefone. Na frente da casa, uma árvore e uma placa dizendo “Casa do Ipê Amarelo”, e anunciando aulas de yoga. Rezei pra São Francisco, pra Deusa, pra sei lá quem. Fomos voltando pela rua, até a frente da casa. Vimos um pedaço da tela de arame amassada. Eu não entendia como aquilo estava arrebentado, só agradeci por ver que a lança daquele espaço não estava suja de sangue. O Paulo encontrou no chão os pedaços quebrados do arame mais forte que prendia a tela ao portão. Não acreditei que meu cachorro pudesse ter conseguido fazer aquilo. Comecei a pensar que alguém o tinha tirado dali, que alguém tinha arrebentado o arame da tela. Meu pai ligou de novo. “Não pegue o carro, não vá pra lugar nenhum, volte pra frente da casa”. Sim, eu iria pegar o carro, iria até a delegacia lá perto, e disse tudo isso no telefone sem nem ao menos ter antes pedido ao Paulo que me levasse até lá. Fomos. Queria perguntar para a polícia se sabiam de algum atropelamento de cachorro – a delegacia ficava bem no cruzamento da Corifeu com a Jaguaré. No caminhos, fomos parando e perguntando pra pessoas, em padarias, bares... De repente, comecei a ficar mais calma. Eu andava, ainda com os olhos estatelados, ainda soluçando sem que nenhuma lágrima escorresse pelos olhos, mas com uma certeza dentro de mim. Nem sabia do que era. Só sabia que era uma certeza. Saindo de uma padaria em que paramos, o telefone toca de novo. Era minha mãe. “Acharam o cachorro”. Onde? Quem? “Na Casa do Ipê Amarelo”. Depois que saímos de lá, o garoto que estava na janela foi tocar violão na vila em que conversei com o porteiro. Quando foi entrar, ele e o porteiro viram o Tobby passando pelas grades do portão – que eram bem mais largas que as do meu – e entrando. Não sei se na hora do desespero passei o celular da minha mãe em vez do meu ou se pegaram o número dela na coleira dele. Quando virei a rua e vi de longe meu cachorro no colo da mulher da janela, aí sim as lágrimas apareceram. Chorava tanto que mal consegui falar. O Tobby parecia muito assustado e, como que por milagre, não tinha um único arranhãozinho na barriga. Agradeci como pude, e voltei pra casa pra esperar minha mãe e meu noivo, que chegaram logo. Nesse pouco tempo, falei pro Paulinho que eu iria voltar pra casa dos meus pais. Ele me disse pra pensar bem, que as dificuldades sempre aparecem, que deveria existir alguma maneira de prevenir aquilo. Mas a decisão já estava tomada. Risco pros meus bichos é uma coisa que eu não banco. Peguei meus bichos e o necessário pra voltar e dormir na casa dos meus pais. Fui embora antes mesmo que minha colega voltasse do trabalho, só liguei avisando que voltaria no dia seguinte pra pegar minhas coisas. Passei o resto da noite em estado de choque, sem conseguir falar direito, sem mal conseguir pregar o olho. Dormi no apartamento da minha avó, vizinho ao meu, mais tranqüilo. O Tobby ficou com meus pais. Depois de algum tempo deitada, liguei pra minha irmã conferir se as janelas estavam fechadas – tinha medo que ele passasse pelas grades da janela e caísse de oitavo andar. Pra falar a verdade, quase um mês depois, esse medo ainda não passou. Voltei pra buscar o resto das coisas no dia seguinte. Comprei caixas de Ferrero Rocher pro porteiro e pro garoto, e flores pra moça. Já não me lembro o nome deles, mas serei eternamente grata. Levei Ferrero Rocher pro Paulinho também, que me mostrou mais um motivo pra eu admirá-lo pelo resto da vida. Naquela noite, minha avó disse para minha mãe que aquilo tinha sido um sinal. Que tudo tinha acontecido pra que eu saísse daquela casa, que algo me aconteceria se eu continuasse ali. Claro que não é um absurdo completo pensar que algo poderia me acontecer ali, já que na volta da faculdade quase todos os dias eu teria que andar sozinha a pé por uma rua vazia e escura. Ninguém está isento disso. Mas as coincidências... As coincidências em que não acredito é que falam mais alto. O sonho com meus camundongos fugindo. A fuga do Tobby quando fui abrir o portão. A oferta de carona, por um amigo que teve a sensibilidade de me permitir ficar desesperada, de me deixar gritar, falar e mandar. Se eu não tivesse permitido que meu desespero brotasse, tenho certeza de que não teria conseguido sair do lugar. A aparição do Tobby pras pessoas mais atenciosas com quem conversei. A simples aparição do Tobby – eu poderia não tê-lo encontrado nunca mais. O fato de ele não ter ido pras avenidas movimentadas. O fato de ele não ter sequer um arranhão, mesmo tendo aparentemente passado por cima da lança. A benção de tudo ter se resolvido em uma única noite. Não consigo pensar que tudo foi em vão. E as coincidências não pararam por aí. Sem saber do sonho, sem saber de nada, meu pai disse que me pedia pra não pegar o carro, porque sentia que era a pé que eu encontraria o Tobby. Sentia que, se eu pegasse o carro, me distanciaria dele. Na semana seguinte, fui com minha avó a Guararema, pagar a promessa que ela fez pra São Longuinho ajudar a encontrar o cachorro. Eu nem mesmo sabia que são Longuinho era um santo de verdade. Ela já estava devendo uma, tinha prometido a mesma coisa ao santo no começo do ano, quando o cachorro dos sogros do meu tio fugiu da casa na praia, com medo dos fogos. Também foi encontrado. Fomos meu tio, sua esposa, sua sogra, minha avó e eu. Antes de chegar à cidade, ainda na estrada, paramos pra pedir informações em uma loja. Lá dentro, um sem número de imagens de São Francisco, me mostrando que estávamos no caminho certo. Compre uma, acho que era mais do que a hora certa. Chegamos à igreja. Uma construção simples, antiga, com as portas e janelas de madeira com pintura azul descascando. Tinha passado por uma reforma no telhado há pouco tempo, mas ainda muito serviço a ser feito. Lá dentro, a anfitriã Nossa Senhora da Escada – uma santa portuguesa, batizada assim depois que uma guerra deixou uma escada íngreme como único acesso a uma igreja de Nossa Senhora da Conceição – dividia o espaço com quatro hóspedes, não menos importantes. São Longuinho estava logo perto do altar. Reza a lenda que Longuinho vem de Longinus, o soldado romano que teria espetado uma lança no corpo de Jesus na cruz, de onde teria jorrado sangue e água. Mesmo com tantos anos de católica, nunca tinha ouvido falar mais nada sobre esse personagem. A água teria espirrado em seus olhos, curando um problema de visão, e depois disso ele teria se convertido ao cristianismo e se tornado sacerdote. Há quem diga que ele tinha problema nas pernas – a imagem não as tem – e por isso gosta que as pessoas pulem por ele. Mais à frente, do lado esquerdo da entrada do altar, uma imagem maior e outra menor do mesmo santo. São Benedito, se não me engano. Do lado direito, uma imagem grande de Santa Teresinha – a santa que deu nome ao colégio que estudei por quase toda a vida. Menor, ao lado dela, uma imagem de Nossa Senhora Rosa Mística, santa de uma igreja perto de Caraguatatuba. Minha avó certa vez me presenteou com uma medalhinha dela, que usei por muitos anos. Nunca consegui visitar a igreja. Por muito tempo, procurei mais informações sobre ela, quis saber sua história, comprar uma imagem. Encontrei pouquíssimas, por um preço que no momento eu não podia pagar. Sua história encontrei em um só site da internet, contada de um jeito estranho. Não consegui ver ligação comigo. Depois de tantos tempo esquecida, fui reencontrá-la nessa situação. Saindo da igreja, na rua em frente, um enorme ipê amarelo me saudava, rindo da vida.
Não é fácil se livrar assim do peso de tanto tempo. Nem sei bem se é o caso de se livrar, acho que é mais uma questão de saber lidar. Foram milhares de anos com papéis rigorosamente estipulados. Ou você era a santa, ou você era a puta. Cada uma com a sua função. Claro que as variações eram permitidas, mas ou permaneciam em sigilo, ou te marcavam pelo resto da vida. Mais tarde, as coisas começaram a mudar. A santa de casa começou a trabalhar fora, a princípio pra cumprir seu papel de cuidadora do lar enquanto o marido estava na guerra ou quando já não dava mais pra contar com a grana só de um. Depois, como objetivo de vida. Já que o trabalho em casa virou prisão, foi-se buscar a liberdade fora. E agora o legal era trabalhar, estudar, ser moderna, fazer sua própria vida, não depender de homem pra nada. Mas, é óbvio, não foi um rompimento. Foi uma mistura, uma confusão enorme que virou sobrecarga. Mais do que uma inversão de papéis: um acúmulo de funções. Os homens também sofreram em todo esse caminho. Manter a dominação não é nada fácil – sinceramente, sem ironias. Eles também precisavam se encaixar. E com a mudança das coisas, também acumularam coisa demais, também estão vivendo num rodamoinho de obrigações. Porém, como eu sou mulher, é só do peso que eu carrego que eu consigo falar com alguma verdade. Agora você tem-que ter uma carreira. Tem-que se dar bem nos estudos. Tem-que saber se manter bonita, mas também tem-que não ser fútil. Você tem-que se virar sozinha, tem-que deixar os homens em segundo plano. Mas também tem-que arranjar namorado e marido. Mas também tem-que ser liberal, liberada. Mas também tem-que se dar ao respeito. Você tem-que ser antenada, tem-que saber de política, e tem-que saber decorar seu corpo e sua casa. Você tem-que trabalhar fora, estar no mercado, e também tem-que ser uma mãe moderna, tem-que educar direito e sem traumas seus filhos, e tem-que fazer pratos fantásticos e sofisticados e tem-que saber organizar uma festa. Tem-que fazer mestrado, doutorado, MBA, escova progressiva, drenagem linfática e pilates. Tem-que curtir música cabeça, ter samba no pé e saber dançar tango. Tem-que pensar nos seus interesses, e tem-que fazer aula de strip e de pompoarismo. Tem-que fazer auto-exame, papanicolau e ainda tem-que usar fio-dental. E claro, como não poderia deixar de ser: tem-que fazer trabalho voluntário. É como disse a minha analista: mulher não tem-que nada. Mulher pode desejar.
 Era janeiro, e minha mãe estava viajando. Aliás, não só ela, como toda a família. Época perfeita pra cortar o cabelo e dar tempo de acostumar com a nova cara antes de escutar opiniões alheias. Miriam, todo dia no Sesc, falando na vontade de tosar as madeixas. E a vontade crescendo... Marquei pra dali a uma semana. Mamys e vovys voltariam só em 15 dias, tempo perfeito. Acontece que um tal de Leando Lopes ia fazer aniversário dia 20, obrigando a família toda a voltar uma semana antes pra levar a Tamara numa festa organizada pelas fãs. Quando soube, liguei correndo pro salão e antecipei o corte. Um dia antes de cortar, na hora do almoço do Sesc Verão, fui pra revistaria, como sempre. Acho que era uma Cláudia, não tenho certeza. Uma reportagem curta sobre numerologia pra cortar cabelos. Casava-se a data de nascimento com a data do corte. 08/11/1985 e 17/01/2007. 10 possibilidades de resultados, somente duas favoráveis. A minha: "vá em frente e faça o corte que vai marcar a nova fase de sua vida". Virando a página, exatamente no verso: "Cabelos Curtíssimos", crônica de Xico Sá. Deu no que deu.
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