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Blog EntryO Mediterrâneo Antigo – M. GrasAug 29, '07 4:37 PM
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Capítulo 3: A Memória

Resumo

É o segundo texto do Gras que leio. Achei os textos dele bem difíceis, pela quantidade de detalhes. Não pude fazer um resumo mais elaborado, mas aí vai praticamente o que entreguei na aula.

 

Ao contrário do espaço físico, que pouco se transformou e ainda hoje pode ser observado, o tempo passado depende de registros e memórias para ser reconstituído. Há sempre a preocupação com ele, ainda que com diferentes objetivos ou resgatado de diferentes formas.

Os orientais foram os primeiros a reunir arquivos escritos em palácio real. A primeira ação semelhante no mundo grego foi realizada pelo tirano de Atenas Pisístrato, no século VI, que mandou fazer uma transcrição dos poemas homéricos. Os egípcios eram admirados pelos gregos, entre outros motivos, por sua forma de registro e memória do passado.

As genealogias se consolidaram como uma forma de literatura, e na maior parte das vezes remetiam aos deuses. Eram buscadas e reconstituídas não apenas como registro histórico, mas como forma de provar a ligação entre a aristocracia e as divindades e assim garantir seus direitos políticos.

As biografias também ocupavam lugar de destaque, entre elas as narrativas sobre os Sete Sábios da Grécia.

A literatura mítica e os registros históricos se misturavam, causando controvérsias até hoje. Um exemplo disso são as obras de Homero, consideradas por muito tempo um registro histórico. As recordações e idéias sobre o passado baseavam-se tanto no tempo cronológico quanto em marcos históricos ou míticos, como a Guerra de Tróia.

Os mitos eram muito importantes no regimento da vida cotidiana. Eram transmitidos oralmente, e portanto sujeitos a alterações e acréscimos. Seus registros antes das compilações helenísticas tinham objetivo histórico – assim como as genealogias – e não eram de domínio de ninguém, do mesmo modo que as transmissões orais.

A memória coletiva constituía-se pela valorização das memórias individuais, tanto que as manifestações artísticas como pinturas e esculturas freqüentemente retratavam o cotidiano. Havia até mesmo um santuário – santuário de Delfos – considerado o centro do mundo e também o ponto de recolhimento da memória do mundo.

O tempo era contado a partir dos ciclos naturais. Com a alternância de dia e noite, os eclipses que ocorria chamavam muita atenção, e passaram a ser usados nas datações, além de serem desenvolvidos métodos para prevê-los. Os trabalhos agrícolas e as navegações tornaram necessária a contagem do tempo pelas estações e pelo ciclo lunar. As atividades religiosas também foram importantes nessa questão, dando nome as meses.

As referências ao tempo encontradas nas fontes escritas muitas vezes não são de datas (cronologia absoluta), mas de intervalos de tempo entre os eventos ou de quantidade de gerações (cronologia relativa). Tais datações baseavam-se nas memórias das famílias e das colônias, sempre ligadas à sua origem divina. As descobertas da Arqueologia, como diferenças estilísticas entre séries de registros materiais, trazem também uma possibilidade de contagem de tempo a partir de uma cronologia relativa, e podem se aproximar da cronologia absoluta comparando os dados obtidos com os registros literários.


Anotações de parte da aula da professora Elaine Hirata no dia 15/08/2006

O arqueólogo busca saber se a paisagem que ele vê e escava é diferente daquela em que a cultura estudada vivia.

Aristóteles considerava que a consolidação de culturas e o domínio de umas sobre as outras se dava a partir do meio ambiente.

A paisagem do Mediterrâneo Antigo era composta por três elementos fundamentais: o mar, as planícies e as montanhas. Cada um deles representava possibilidades e limitações.

O mar, elemento mais forte dessas culturas, incita viagens e desafios. Além da pesca e do transporte, também oferece uma possibilidade de saída. Porém, representa também obstáculos e desafios.

O mar estimulou a passagem entre a Grécia e a Ásia Menor, por meio das ilhas Cíclades, que diminuíam as distâncias. A navegação nessa região começou por volta de 2 milênios a.C.

As montanhas ofereciam madeira de seus bosques de carvalhos, terra para pastagens e plantio de oliveiras, mas também eram abrigo para fugitivos e traziam dificuldades de comunicação com os indivíduos de áreas próximas. Acabaram se tornando o elemento central de uma das teorias para o surgimento das póleis, embora haja contradições quanto a isso.

As planícies, mais raras, ofereciam as áreas para o plantio de cereais, que era a base da alimentação na época, e também a possibilidade de expansão e fixação humana. Estavam mais presentes no norte da Grécia e em áreas de "colonização" grega, como a Sicília, a Itália e o Mar Negro.

O clima do Mediterrâneo era composto por verões quentes e secos e invernos frios e úmidos, além de um regime de chuvas bastante instável. Essa instabilidade de chuvas na Grécia foi um fator limitante, já que por vezes toda a colheita era perdida, tornando o cereal ainda mais escasso.

As guerras por terras de planície onde fosse possível plantar cereal eram quase o cotidiano das cidades gregas, gerando dificuldades de subsistência. Uma das táticas de guerra era justamente a destruição de plantações e colheitas, para debilitar o inimigo. A carência na alimentação grega pode ser observada hoje pelo estudo das ossadas encontradas.

A dieta básica grega era formada por azeitonas e azeite (também usado na iluminação), uva e vinho (também exportado e trocado), cereais (principalmente cevada e milho) e legumes; e complementada por peixes, criação de animais e caça (inclusive esportiva). Por causa da falta de espaço, eram criados para alimentação apenas animais de pequeno porte, como carneiros. Bois e cavalos tinham função na agricultura como animais de tração, mas eram um privilégio das elites, pois sua manutenção era bastante cara. O cavalo era o emblema típico da aristocracia grega, e era usado em esportes muito valorizados, como corridas de carros puxados por eles.

As dificuldades para obter alimentos também foram propulsoras da produção de objetos que pudessem ser trocados por cereais. Corinto e Atenas foram os primeiros a realizar essas trocas com a Sicília e o Mar Negro.

 


ReviewReviewReviewReviewA Cidade Antiga em CenaAug 15, '07 1:20 PM
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Category:Other
Registro fotográfico de viagem à Sicília feita por laboratório de estudos da Cidade Antiga do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE), com texto da professora Elaine Farias Veloso Hirata. O objetivo da viagem foi comparar o modo de vida da Cidade Antiga com o da população atual da região. O registro mostra moradores em cenários antigos e também a encenação de uma antiga peça de teatro.

MAE: Av. Prof. Almeida Prado, 1466 - Cidade Universitária - Butantã
(corredor das salas de aula)
Fone: fax:(0xx11) 3091-5042


           O autor marca três posturas comuns na bibliografia de História da Grécia e de Roma em relação à cultura material: a marginalização, ou seja, a simples desconsideração dos dados trazidos pela cultura material; o uso instrumental das informações advindas do estudo dessa cultura, utilizando-as apenas para complementar e confirmar o texto ou ainda para auxiliar nas datações; e o uso didático do universo material, como maneira de clarear o texto e criar um clima de vivência do relato, sob a forma de ilustrações, catálogos ou coleções puramente visuais. Acredito que as posturas instrumental e didática devem muitas vezes se misturar e se confundir, tornando difícil determinar qual prevalece em um trabalho em particular.

            O autor ainda diz que essas três posturas baseiam-se em alegações que seriam equivocadas sobre a documentação material: a de que seria apenas uma parcela reduzida dos fenômenos históricos; a de que seria aleatória, fruto de filtros culturais e naturais, sem critério sobre a relevância do que seria importante para uma leitura correta acerca daquela cultura; e o abismo existente entre aquele espaço como sítio arqueológico e como palco de relações da cultura que o produziu, fazendo com que os fatos apreendidos de uma e vivenciados por outra não fossem necessariamente coincidentes. Bezerra de Meneses considera tais alegações enganosas e ambíguas, entre outros motivos, justamente por cindirem radicalmente a cultura material da não-material. Todas as alegações poderiam ser aplicadas da mesma forma às informações de fontes textuais: que seriam apenas um recorte, que seriam aleatórias em sua forma de chegar até nós, e de que não seriam necessariamente coincidentes com o fato em si da cultura estudada. Mais pra frente no texto o autor dá ênfase especial a este último aspecto, ao tratar do viés da documentação textual. O texto seria apenas uma representação dos acontecimentos, e não o equivalente verbal do fato rela, sendo, dessa maneira, também apenas um recorte, uma parcela reduzida de um fenômeno.

            Das vantagens fornecidas pelo documento material, o autor cita sua menor permeabilidade ideológica, as facilidades para tratamento quantitativo e comparativista e o caráter preponderante do anonimato. Essas vantagens, principalmente as duas últimas, tornariam possível estudar e compreender o cotidiano das culturas, o domínio do banal, do que é vivenciado pela maior parte da população, e que não encontra espaço nos registros textuais. Ouso lançar um questionamento à menor permeabilidade ideológica, recordando uma explicação dada pela professora Elaine Hirata, acerca do aumento da freqüência da retratação do deus Dionísio – que não refletia os ideais gregos – em cerâmicas após o advento de determinado governante. Não apenas sua repentina aparição,  mas a própria ausência dessa figura nas cerâmicas de antes já não poderia ser considerada um viés ideológico?

            Depois de tais discussões, o autor conceitua cultura material como um segmento do meio físico socialmente apropriado pelo homem, e os artefatos tanto como produtos quanto como vetores de relações sociais. A Arqueologia, assim, se configura como uma ciência social que estuda não apenas os artefatos em si, mas também e principalmente o comportamento e a mudança dos sistemas sócio-culturais ao longo do tempo.

            Essa ciência, porém, ainda carece de uma teoria da cultura material, o que dificulta o trabalho dos que se propõe a estudá-la. Há diferentes maneiras de se buscar apreender informações dos artefatos, todas elas válidas: unir características semelhantes em grupos, e por sua manutenção ou mudança inferir acontecimentos e fatos; buscar o nível individual dos artefatos, e compreender assim seu uso e sua relação com o corpo; as análises espaciais, visando o estudo do espaço como ingrediente da ação cultural; as pesquisas demográficas que fornecem parâmetros para uma escala dos fenômenos sociais; e os contextos funerários, largamente estudados, a partir dos quais pode-se compreender questões relativas a status e hierarquia.

            O autor finaliza reafirmando a relevância do estudo da cultura material como campo próprio e a possibilidade de desvendar muitos fatos obscuros a partir desse novo conceito de Arqueologia.


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